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Quarta-feira, 30 de Dezembro de 2020
recolha de "Folclore Musical" (1950)

Na Angola colonial, os contextos culturais também eram por vezes "construídos", ou de certa forma "moldados" numa óptica civilizacional por assim dizer "ocidental". Se bem que o objetivo último de algumas iniciativas pudesse ser contribuir para uma narrativa utilitária nos reticentes areópagos internacionais que o colonizador enfrentava, surpreendentemente surgiam à luz do dia novas e eventualmente "incómodas" realidades que desse modo se tornavam patentes. Veja-se o caso:

"Uma das ações culturais e científicas do Museu do Dundo consta da Missão de Recolha de Folclore Musical, iniciada a 23 de junho de 1950 (...). Foi chefiada pelo empregado da Diamang, Manuel Pinho da Silva, conhecido pela população nativa como “o Branco do Serviço das Cantigas” (...). Esta ação foi desenvolvida em sete campanhas de recolha etno-musical efetuadas em aldeias das províncias do Cuando-Cubango, Moxico e Lunda, indo para lá da designada ‘Zona de Explorações’ da Diamang. Cada campanha durava em média 3 meses, e a mais longa foi a terceira campanha que durou 15 meses. Na totalidade foram percorridos cerca de 20.000 Km (...)." Essas recolhas originaram "um conjunto de materiais de índole documental, áudio e fotográfico que resultou em cerca de 1500 músicas em 752 discos."

Segundo o então Conservador do Museu, José Redinha, "Desejamos assim significar a música indígena e os seus cantos, surpreendidos naturalmente, na sua feição cândida e rústica, se possível ocasional, a céu aberto, tendo por caixa de ressonância o fundo da floresta ou o âmbito das palhoças."

"A missão contava com uma equipa vasta, incluindo cozinheiros, motoristas, intérpretes musicais (mulheres) e instrumentais (homens, os chamados tocadores), esposas dos colaboradores da Companhia (empregados, i.e., brancos), padres e sobas (...). As campanhas tinham como destino as aldeias do interior, os sobados, o que trazia muitas dificuldades à circulação no terreno, exigindo a colaboração das populações nativas. Mas logo no início, outras dificuldades surgiram. Por um lado, em muitas aldeias não existiam pessoas que tocassem ou cantassem, assim como não havia reportórios e instrumentos musicais entendidos pela missão como ‘tradicionais’ (...), tal como o txinguvo ou tambor, considerado pela missão como o mais ‘autêntico’."

"Entre conversas com as populações e os trabalhos de caça, a missão teve de pedir aos sobas que recrutassem intérpretes nas suas aldeias para depois, levados para os ‘acampamentos’ na forma de ‘concentrações de indígenas’, se escolherem as melhores vozes e os melhores ‘tocadores’. Esses acampamentos eram organizados no mato junto de aldeias e postos administrativos, e era nesse espaço que toda a equipa se instalava para a seleção e gravação das músicas, ocorrendo a gravação à noite. Todos os indígenas eram recompensados com dinheiro, alimentos e tabaco. Os instrumentos e os intérpretes selecionados pela missão eram transportados em carrinhas durante todo o percurso da campanha respetiva para assim interpretarem os reportórios definidos pela missão como ‘tradicionais’. Nesse processo de ‘autenticação’ participavam tanto os colaboradores da Diamang como a população indígena inquirida e que, juntos, integravam a missão."

"(...) para comprovar a ‘autenticidade’ das letras, a etapa da ‘recolha escrita’ era muito importante, pois servia para selecionar a ‘pureza’ dos repertórios, e era feita pelas esposas dos empregados da missão e pelas mulheres indígenas. No fim de cada campanha, era no Dundo que se procedia à revisão das letras, onde se reuniam à volta de uma mesa os sobas, os padres e as mulheres."

"As músicas recolhidas na quinta e sexta campanhas foram não só selecionadas pela Missão como também estudadas pelo maestro Hermínio do Nascimento e publicadas/divulgadas internacionalmente na forma de estudos musicológicos em duas das Publicações Culturais da Diamang. Entre as várias temáticas cantadas (rituais de iniciação, de culto ou de adivinhação e feitiçaria; relações amorosas; sexo; morte; doença; caça; escravatura; lavras; relação com autoridades) e que derivam de experiências quer em contextos angolanos, quer no então Congo Belga ou na então Rodésia do Norte, a temática do trabalho contratado (ou forçado) é bastante interpretada, até porque grande parte dos intérpretes eram trabalhadores contratados, ou seus familiares."

"O trabalho de tipo industrial, enquanto elemento marcante da ‘missão civilizadora’ e moderna do colonialismo português (...), acarretou consequências, no sentido de originar novos padrões de vida e novas conceções do tempo e do espaço. Por isso, para além das narrativas musicais que explicitamente referem situações de fuga ao recrutamento/trabalho contratado ou à autoridade colonial, e fuga até do país, surgem temas que, apesar de cantados maioritariamente por mulheres, espelham experiências de ambos os géneros: dicotomia vida urbana/vida rural, dicotomia bens materiais/família, conflitos na vida conjugal, traição, saudade (do companheiro/a que trabalha na cidade ou da terra natal), partida e regressos das/às aldeias, sofrimento (pela solidão, viuvez ou pelo trabalho), ausência de filhos no casamento, mudança de aldeia, solidão, morte no trabalho nas minas, medo, dicotomia trabalho feminino/cuidar dos filhos e relações entre a administração colonial e a autoridade tradicional (chefes de postos administrativos, cipaios e sobas) (...)"

(Cristina Sá Valentim, IV Colóquio Internacional de Doutorandos/as do CES, 2013; ler mais aqui)


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publicado por zé kahango às 17:00
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