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Quinta-feira, 13 de Março de 2014
Contos do Vissapa - 6

NKWASI - A LENDA

 

Ngeve palmilhou os últimos cinquenta metros que a separavam da cubata abandonada no meio da anhara onde o mato rasteiro tomara como residência o terreiro que outrora se situara no meio da sanzala. A bola vermelha germinava no horizonte crepuscular recortando as árvores mais altivas em tons sombrios com a natureza orquestrando os primeiros acordes matinais. Arrastou-se até ao centro do terreiro com ambas mãos sustentando o ventre dilatado de vida. Virou-se para o sol como buscando ajuda e o semblante alterou-se num esgar de dor. Curvada trouxe ao mundo Ekumbi menino sol que transportara há nove meses consigo. Cortou o cordão umbilical com a boca e limpou a criança com ternura. Ngeve fora expulsa da sanzala e estigmatizada como adúltera por Ngongo e a sua mulher Njamba três meses antes do parto literalmente selvagem. Gémeas de nascimento ambas haviam sido prometidas aos doze anos na festa da puberdade respectivamente a mais nova Njamba, ao soba Ngongo e Ngeve a um pastor negro garboso e de porte altivo de nome Vitulo. A sanzala situada entre o Cafu e o Humbe tocava a vida harmoniosamente entre o pastoreio do gado, os arimbos de milho e a pesca artesanal no Cunene. Ngongo que queria as duas irmãs só para ele tratou de afastar o pastor de Ngeve e obrigou Vitulo a ir em busca de umas cabeças de gado supostamente roubadas obrigando o rapaz a uma ausência de seis meses sem este sequer concretizar qualquer relacionamento com a sua prometida. Quando do tardio regresso à sanzala o jovem Vitulo encontrou a mulher grávida. Alegando adultério os pais das gémeas tiveram de lhe devolver o dote respeitante a Ngeve que era constituído por várias cabeças de gado. O soba Ngongo temeroso de Njamba fechou-se em copas e determinou a expulsão da rapariga. Ekumbi cresce com a sua jovem mãe na sanzala abandonada e torna-se um jovem atlético, profundo conhecedor dos segredos dos matos. No final dos anos trinta tem vinte anos e é um hábil pescador e caçador garantindo com o plantio do arimbo por Ngeve o sustento de ambos. Tem um recanto onde pesca no Cunene e a altiva águia pesqueira africana que o observa acaba por se habituar à sua presença soltando o seu gristo estridente sempre que o jovem chega à margem do rio. Volta e meia levanta vôo e rasa as águas agarrando com as garras um descuidado peixe prateado. Tornam-se dois companheiros de pesca que se toleram numa paz absoluta e o jovem Ekumbi acaba por imitar na perfeição o grito da ave. Certo dia ao chegar ao rio estranhou não ouvir as boas vindas da águia e não a lobrigou no seu poleiro habitual na acácia espinhosa. Encontrou-a agonizante sob a espinheira totalmente coberta de quissondes. Sacudiu os insectos e enterrou a sua companheira destroçado pelo desgosto. Quando acabou a tarefa vislumbrou um ninho entre as folhas da árvore e ouviu os gemidos esganiçados e famintos do filhote desprotegido. Subiu com dificuldade à espinheira e retirou avezinha quase sem penas do ninho e alimentou-a. Um ano volvido o animal tinha-se transformado num soberba águia que o acompanhava para onde quer que ele fosse soltando os seus gritos de liberdade e regressando com ele ao diminuto kimbo pernoitando numa das acácias adjacentes. De maior idade a mãe Ngeve conta-lhe a história do seu nascimento e faz-lhe saber que o soba Ngongo é seu pai. Ekumbi decide conhecer o homem que é seu progenitor e resolve ir à sanzala onde ele é soba acompanhado de Nkwasi o nome com baptizara a águia sua fiel companheira. Encontra a sanzala aterrorizada com a ameaça de um leão solitário que na noite anterior assaltara a sanzala de Ngongo e Njamba com o fito de roubar alguma cabeça de gado. Imprudentemente o soba e a mulher enfrentaram o animal e acabaram por sucumbir ao ataque deste. Os habitantes quando vêm Ekumbi acompanhado de Nkwasi a soberba águia pesqueira, de imediato identificam as parecenças Ekumbi com falecido soba e pensam que este reencarnou por ordem de Nzambi em homem e águia para os libertar do terror do leão predador. Ekumbi aceita de bom grado esta veneração e hábil caçador que é acaba por conseguir surpreender a fera e acabar com ela uns dias mais tarde É eleito soba e herda os bens de Ngongo. Nkwasi passa a fazer parte integrante do kimbo e pela alvorada solta o seu grito estridente de liberdade. Para os habitantes representa o deus Nzambi e ninguém ousa sequer aproximar-se dela. Esta lenda africana passa de geração em geração até aos nossos dias e quando hoje uma Nkwasi solta o seu grito estridente pelos céus este é interpretado em várias regiões da nova África negra como um grito da liberdade.


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publicado por zé kahango às 17:03
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