Uma apaixonante e esplendorosa terra, um magnífico povo! Será brilhante seu futuro, construído por todos os que têm Angola no coração, que nela ou na diáspora trabalham e com amor criam suas famílias.
Quarta-feira, 26 de Fevereiro de 2014
Contos do Vissapa - 2

O SONHO DO ZAGAIA

 

Aos fins-de-semana tinha por hábito agarrar na minha caçadeira e conduzir até ao quilómetro dezasseis onde desaguavam quatro estradas e havia uma tasca que me desenferrujava as goelas com uma Cuca fresquinha. Uma das estradas conduzia à Chibia, outra à Huíla e outra a que me levava até ali vinda do Lubango. A quarta estrada era a antiga ligação ao Quipungo na época muito pouco usada. Mas era por ali que enfiava a carripana em direcção a pequenas povoações que haviam germinado por via do primeiro ramal ferroviário a ser construído, projecto posteriormente abandonado. Já tinha passado o Cangolo em direcção a Proença a Nova e Capunda Cavilongo quando vi o Zagaia. Ali estava ele encostado a uma vagoneta enrugada por o ferrugem e esquecida junto ao ramal fazendo lembrar uma tartaruga gigante na desova. – Bom dia está tudo bem? Perguntei estacando o carro perto dele. – Está tudo bem menino respondeu-me com um sorriso de sol tratando-me por menino quando o menino era ele. Umas pernas esguias a emergirem do que já fora um calção em tempos e os bracinhos desnudos apoiados na borda da vagoneta devendo a idade oscilar entre os sete e os oito anos. – Então como é que te chamas? Perguntei para entabular conversa. – Me chamam mesmo de Zagaia menino. É porque eu ando sempre com a minha zagaia. – Elucidou-me justificando o nome. – Então tu és caçador? Perguntei pois eu próprio tinha vindo para aqueles lados para caçar. – Não sou não, eu sou maquinista o menino quer ver. E saltando para dentro do veículo ferroviário deu andamento ao mesmo. – Tchuca, Tchuca, Tchuca. Puuu. Puuu Puuu. – Então vais onde? Perguntei no gozo. Vou para Capunda Cavilongo respondeu-me já em plena acelaração. – Olha lá e onde é que há perdizes e capotas? Voltei à carga. - Lá à frente tem muito mesmo. Disse-me apontando o bracito para um ponto perdido na distância. – E é longe? Insisti. – É perto mas é longe. Respondeu-me encolhendo os ombros. – Então como é que é isso? – É perto se vais no teu carro mas é longe se vais no comboio do Zagaia. – Intimamente concordei com o seu raciocínio. – Olha lá mas tu para seres maquinista tens de ir à escola. – Fiz-lhe ver. – Eu costumo ir à escola lá debaixo da mulemba onde professor Kamate ensina a gente. – Ai é? E já sabes ler e escrever e fazer contas? Indaguei curioso. – Já sei a tabuada e também juntar o B com o A, que eu quero mesmo ser maquinista de verdade. Deixei-o com o seu sonho e quando regressei ao entardecer já ele devia estar no kimbo a sonhar com comboios. Nas várias vezes em que fui para aqueles lados lá estava a ele junto a velha vagoneta a conduzi-la para Capunda Cavilongo e de uma delas dei-lhe um comboio de brinquedo em lata já meio estropiado e muito longe das minhas brincadeiras de menino.

 Nos anos que se seguiram à minha saída de Angola e a guerra civil eclodiu vi imagens de linhas férreas destruídas, máquinas e carruagens agonizantes e as velhas estações completamente depredadas e lembrei-me de Capunda Cavilongo, Poença a Nova, Olivença e por aí fora. E lembrei-me do Zagaia e do seu sonho em ser maquinista, e dos meus sonhos e dos sonhos de tanta gente, da vagoneta enferrujada Tchuca, Tchuca, Tchuca. Puuu, Puuu, Puuu.

 Anos volvidos voltei a Angola e fui por estrada em direcção ao Lubango e ali onde desaguam quatro estradas a tasca onde bebia a minha Cuca estava lá esventrada e parecendo ter varicela com as imensas marcas de balas disparadas contra ela. Não hesitei e virei o carro em direcção ao Cangolo e conduzi alguns quilómetros. E lá estava ele o comboio do Zagaia na forma de vagoneta. Ao seu lado vejo um homem de muletas, barbicha branca e um semblante sem memória nem destino. – Boa tarde amigo então como está tudo por aqui? – Está tudo bem patrão. Respondeu-me a imagem famélica. – Eu não sou patrão de ninguém e acho até que nunca fui. Informei-o fugindo ao tratamento conotado com a época colonial. – É o hábito mesmo patrão. Insistiu no trato. – Eu antigamente vinha caçar para estas bandas. Dei-lhe a saber. - Ai é? Tem muita perdiz e muita capota lá. E levantou uma das muletas apontando em direcção incerta. – E é longe? Indaguei não resistindo à pergunta. É perto mas é longe. Respondeu-me prontamente. – Então como é isso? – Se vai no carro é perto mas se vai a pé é longe. Explicou-me. E mais uma vez concordei com o raciocínio. – E a vagoneta? – A vagoneta já morreu há muito tempo patrão. – Olha no tempo dos colonos tinha um menino que me dizia que ia para Capunda Cavilongo nela. – Informei saudoso. – Como mesmo chamava ele? Perguntou acendendo pela primeira vez uma luzinha no olhar perdido e vítreo. – Chamava-se Zagaia. – Zagaia sou eu mesmo patrão. – Não me trates por patrão por favor, trata-me por menino. Saí do carro e abracei-o com comoção. – Ele ficou assarapantado com a minha atitude e a face enrugada e gasta deixou escapar um sorriso. – Então e o que foi isso nas pernas? Perguntei pesaroso. – Foi o guerra menino. Fomos mesmo no tropa e tem lá aquela linha que leva o comboio no Dilolo e o comandante Kamate está nos dizer que todo o comboio dos colonos temos de destruir. Isso aí é símbolo dos colonialistas. Aí rebentou uma mina do inimigo e me levou as pernas. – Ai é? E o quê que tu achaste de destruir os comboios. Questionei-o propositadamente – Eu perguntava no comandante para quê matar o comboio que não faz mal a ninguém? E ele me dizia que era o preço da democracia e da liberdade. Explicou-me. - Então e aquele sonho que tu tinhas de ser maquinista quando fosses homem? – Ainda está aí na minha cabeça é por isso que estou aqui ao pé da vagoneta. O comandante Kamate agora é general e veio visitar os família aqui do terra e está me dizer que mais logo vem os chineses para construir o comboio novo e todo o mundo vai ganhar muitos Kuanzas. Esperançou com um sorriso. - Quem é todo o mundo Zagaia? – Eu não sei não menino, só sei que quero ser maquinista e guiar o comboio para Capunda Cavilongo. – Justificou-se. – Olha e o General veio aqui como? Perguntei curioso. – Vieram assim com muitos jeeps brilhantes e muitos soldados. E olha menino o General está gordo como o porquinho lá do kimbo. A cara dele até brilha eu acho que ele anda comer essa comida nova dos chineses. – Ai é?

 

Reis Vissapa


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publicado por zé kahango às 09:21
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