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Terça-feira, 25 de Fevereiro de 2014
Contos do Vissapa - 1

A MAMBA E O ELEFANTE

 

O Dombondola nascera algures entre o Bicuar e o Xiringuito e para quem não saiba o Dombondola era um elefante pachorrento com quase setenta anos de idade e um deambular pela savana e pela floresta quer lhe proporcionara um certo traquejo em relação à vida na terra africana.

Logo pela manhã e depois de uma ruminação constante pelas matas adjacentes o fleumático Dombondola encaminhava-se para o Xiringuito para se dessedentar. Ele mais a sua prole, duas elefantas avantajadas com enormes presas e um traseiro de fazer inveja a qualquer quitandeira da Baía a vender Quindins pela rua. Imediatamente atrás vinha o Dombondola Júnior e o endiabrado Farroncas. Filho da segunda fêmea do velho elefante, o Farroncas era intragável. Se a família queria ir pela esquerda ele ia pela direita ou vice-versa. Pelo caminho em direcção à água parava aqui e ali colhia Mangongo ou os frutos do Marufo, metia-se com o Zé Cágado que desprezador se enfiava na sua cubata e não lhe ligava peva. O Chico Larico caçoava do Farroncas quando o puto queria meter-se com ele tentando alcançá-lo com a sua tromba. O filho do Dombondola passava-se dos carretos com os disparates do Chico mas havia quem tivesse já visto os dois mariolas em franca conversação. Coisas do mato.

Se havia alguma coisa que punha o Farroncas totalmente fora de si era a Maria Mamba. O pai e a mãe já o tinham avisado para deixar a velha víbora em paz. O Dombondola tinha o curso da mata mal tirado claro mas mesmo assim uma grande experiência na vida que lhe dava o ensejo de conhecer toda a comunidade. – Respeita os defeitos dos outros Farroncas senão qualquer dia dou-te duas trombadas no lombo que vais ver como elas doem. - O velho patriarca tentava educar os filhos à boa maneiro do seu pai o falecido Jamba.

A Maria Mamba lá muito no fundo não era má cobra, era apenas ciosa do seu espaço onde coabitava com uma rimada de térmitas que viviam no condomínio fechado “Alto do Salalé”. Vivia sozinha sem companheiro com o seu próprio feitio, aliás tão mau que nunca conseguiu arranjar nenhum. Sem alternativa gastava o tempo embelezando a língua e as escamas cor de chumbo. Tentava dissimular o carácter fechando-se na sua toca acumulando veneno e silvando a quem passava por perto. Este mau feitio acabou por lhe granjear alguns inimigos e apenas tinha umas amigas cobras cuspideiras aduladoras e falsas que pactuavam com o seu mau humor e intransigência. Coisas do mato.

 Quando pressentia a família do Dombondola acoitava-se junto ao carreiro de terra batida por onde eles passavam e zás. Abria a boca e mostrava sem reservas a língua bifurcada em ameaças veladas que o velho paquiderme deitava para trás das costas. Mas o Farroncas rapazote cheio de sangue na guelra ficava pior que estragado e várias vezes levantou a patorra para lhe dar uma lição, só a pronta intervenção da primeira fêmea do Dombondola é que evitou uma tragédia. – Vá gente vamos para água deixem lá a senhora que lá tem os seus problemas com a vida. – Conciliava o Dombondola tentando criar harmonia na comunidade.

Um dia conversara sobre a irascível Mamba com o casal “Rinocerus” e com as três solteironas as manas “ Vestrudes” e uma delas dissera-lhe – Não lhe ligue Dombondola” que ela já nasceu assim e tarde ou nunca se endireita. – Aconselhou Julieta Vestrudes. – Mas não me digas que tenho de mudar de caminho Julieta só por causa daquela cobra emplumada? – Retorquiu o elefante. – É melhor meu velho amigo, arranje outro trajecto. – Alvitrou pragmática madame “Rinocerus”. - Nem sabe o que já passei com aquela velhaca, julga-se dona daquele lugar e ai de quem a contrarie tem um veneno que o meu Julius teve o corno infectado durante meses.

O paquiderme que não era dado a conflitos com ninguém, sabia e sabia que sabia o que fazia dele um elefante sensato e coerente. Certo dia em que Maria Mamba se excedeu nos seus dislates e o Farroncas esteve muito próximo de lhe pôr a patorra em cima parou e perguntou elegantemente. – Não me leve a mal que lhe pergunte Dona Mamba, que mal é que eu e a minha família lhe fizemos? – Saia já daqui seu velho presumido e baboso, veio invadir o meu espaço e isso é coisa que eu não tolero. Julga vossemecê que por ter esse tamanho não lhe dou uma ferroada das boas. – Sibilou colérica, capaz de se injectar a ela própria. O velho elefante sorriu irónico pois a sua couraça era de tal maneira espessa que Maria Mamba não tinha qualquer hipótese de o molestar. Afastou-se tranquilamente com a família em direcção ao Xiringuito, onde se saciaram e tomaram um magnífico banho. De regresso parou perto da toca de “Mangusto Finório” e disse-lhe. – Amigo “Finório” sabes que vou começar a ir ao outro lado do rio e tão cedo não passo por estas bandas, mas como sou teu amigo vou dar-te uma dica boa. – Então diz lá Dombondola é coisa que me interesse? – Perguntou o Mangusto sempre pronto para a rebaldaria. – Olha nestas minhas andanças por aqui e por ali descobri uma toca excelente e a bom preço perto do “Alto do Salalé” que te pode interessar. – No “ Alto do Salalé” meu irmão, nem penses! Porque achas tu que me mudei de lá para aqui. Aquela Maria Mamba pretensiosa não é vizinha para ninguém. – Queixou-se eriçado. - Olha pensando bem já não vou mudar de caminho vou deixa-la silvar o resto da vida e pode ser que um dia se pique a ela própria, a mim e ao “Farroncas” não pica de certeza, afinal eu só passo na estrada e nem um humilde Salalé pisei na minha vida na selva.

Passa bem “Mangusto Finório”. – Passa bem Dombondola e dá cumprimentos às manas cuspideiras e podes dizer que eu nunca vou chateá-las, ainda por cima com aquela verruguenta da Mamba por perto. Despediu-se o Mangusto com ironia. Coisas do mato.

 

Reis Vissapa


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publicado por zé kahango às 22:22
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