Uma apaixonante e esplendorosa terra, um magnífico povo! Será brilhante seu futuro, construído por todos os que têm Angola no coração, que nela ou na diáspora trabalham e com amor criam suas famílias.
Quinta-feira, 7 de Julho de 2022
As Missões Católicas do Sul

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  1. MOSSAMEDES, outubro de 1881:

JOSÉ MARIA ANTUNES (então com 25 anos, nascido em Santarém, em 1856) e CHARLES DUPARQUET, sacerdotes Espiritanos, chegam ao porto de Mossâmedes.

  1. HUMPATA e PALANCA, novembro-dezembro de 1881:

Os missionários encontram-se com o Governador de Mossâmedes e o comandante da colónia bóer, a fim de escolher a localização de 2000 hectares para a instalação da Missão. Os colonos bóeres tinham já ficado com os melhores locais – aqueles onde a água corria com abundância.

  1. HUÍLA, 1882:
  • Após os procedimentos de agrimensão do terreno escolhido, efetuados por Câmara Leme, no final de abril a propriedade da “Missão do Sagrado Coração de Jesus do Real Padroado Português” ou “Missão Católica da Huíla do Real Padroado Português” está definida: tem cinco léguas de perímetro, em que se incluem mil e quinhentos hectares ao longo do rio Mucha e quinhentos hectares na floresta.
  • O Padre José Maria Antunes é caracterizado nas palavras do Padre Duparquet nos seguintes termos: “prega perfeitamente e com facilidade, é muito instruído e excelente professor; numa palavra, é bastante capaz de dirigir o trabalho da Huíla” e “é um homem fora de série, de grande capacidade, um dos súbditos mais ilustres da Congregação. Ele é perfeito em tudo. Regularidade, zelo apostólico, amabilidade, ciência, eloquência, belas-artes, de modos distintos, etc. Não se pode encontrar ninguém igual.
  • Os trabalhos de construção dos edifícios começaram sem demora. Em meados de 1882, Duparquet faz o ponto da situação: “Há pelo menos quarenta pessoas empregadas: pedreiros, carpinteiros, trolhas, construtores de telhados, etc.”. Em setembro, o Padre Antunes refere que “conseguimos construir uma primeira linha de edifícios, com seis quartos de três metros quadrados cada. O que foi feito em três meses, mas que trabalho exigiu! As pedras tiveram de ser arrancadas das pedreiras, os tijolos feitos no local, a madeira teve de ser serrada por aqui mesmo, das árvores da floresta. Todos prontos para trabalhar de boa vontade.”
  • O Pe. Antunes divide a obra da Huíla em duas: a Escola Profissional e o Colégio: "a primeira para crianças de classe média, esta última para famílias ricas que desejam dar a seus filhos uma educação e sustento europeus…"
  • No final de setembro de 1882, José Maria Antunes relata ao Superior Geral da Congregação: "Este ano trinta e dois adultos tomaram os Sacramentos. Também me sinto abençoado por ensinar dez crianças, a quem administrei a primeira comunhão, feita no dia do Sagrado Coração de Maria; foi a primeira cerimónia do género que vimos na Huíla desde a sua fundação."
  • No final de 1882, o Bispo chega à Huíla de surpresa, trazendo os seminaristas de Luanda. Avisa o Padre Antunes “em cima da hora”, facto consumado: “Estou em Mossâmedes com os alunos do Seminário para seguir para aí. Vai adiante o Governador Geral e o deste distrito: vai este encarregado de arranjar 2 carros em Capangombe, devendo arranjar na Humpata outros dois dos Bóeres para irem ao nosso encontro ao Alto da Chela, e daí conduzir-se tudo para onde entender. São 8 alunos, por ora; talvez leve daqui mais alguém; vão para o serviço do Seminário 2 artistas, um alfaiate e um ferreiro, 2 moleques, se tudo isto aí lhe convier. (…) Não houve tempo para melhor prevenção. Foi negócio resolvido à [última] hora com o Governador Geral, que se mostra afeiçoado à Missão. Aproveite a ocasião da estada dele aí para lhe pedir o que entender.”
  • Com o precoce acréscimo desta nova responsabilidade, o Seminário, Antunes vê reduzirem-se as disponibilidades para precisamente conseguir fazer-se entender junto dos pagãos a evangelizar. Tinha começado a estudar a língua dos muílas, já conseguira alinhavar um catecismo em nyaneka, mas era ainda insuficiente para a eficácia dos missionários da Huíla.
  • Referindo-se à visita do Governador Geral Francisco Joaquim Ferreira do Amaral, Antunes afirma que “o governador ficou satisfeito com as nossas boas relações com os bóeres e mais especialmente com as nossas boas relações com os povos locais. Os negros sabem que não estamos ali para explorá-los, mas para trabalhar para o seu bem-estar, é por isso que vêm até nós sem medo. 'Isso já é uma vitória para si', disse Sua Excelência, 'porque uma das coisas mais difíceis é inspirar nessas pessoas afeto e confiança no homem branco'”. O Governador sabia que afeto e confiança não se obtinham ‘manu militari’, mas esperava que os evangelizadores conseguissem obtê-los…
  • Antunes afanosamente tudo organiza. A Luanda pede os registos paroquiais e freiras para educar as meninas da Missão. O trabalho que Antunes assegura é intenso, e lamenta: “(…) eu me vejo completamente sozinho no meio de uma necessidade sempre crescente e ser-me-á impossível fazer face ao trabalho que se apresentará este ano.” “(…) terei: 1º um Colégio a organizar, para o qual existem já algumas crianças; 2º uma Escola Profissional para a qual também existem algumas crianças; 3º um Seminário a dirigir e portanto é necessário fazer as classes; 4º a Paróquia da Huíla a administrar; 5º a de Capangombe, a sete léguas da Huíla, que não foi visitada este ano que se esgota e onde em consequência ninguém pôde receber os Sacramentos; 6º tenho a correspondência com o Governo acerca do Seminário, da Missão, da Paróquia; tenho a correspondência com o Bispo de Angola, com Braga, com a Casa-Mãe, etc.” “(…) é impossível que um homem apenas seja suficiente para tudo isso (…)” “Esta obra da Huíla é muito importante e muito múltipla; se for bem gerida, pode ter uma grande influência para a futura regeneração desta pobre diocese; pode dizer-se que é a única obra que tem nas suas mãos o futuro religioso de todo este país, desde o Zaire até ao Cunene.”
  • Antunes expressa as suas incertezas: “O início desta obra parece ser anunciado sob favoráveis auspícios, ganhou a benevolência do Governo e do Bispo; se for bem dirigida, acredito que será capaz de fazer o bem. Mas, para isso e como condição indispensável, deveria estar à frente desta obra um homem prudente, experiente e maduro, que soubesse dirigi-la.” (…) “(…) eu não estou nessas condições, nem tenho essas qualidades; eu sou demasiado jovem, muito inexperiente, incapaz de levar tão grande empresa a uma conclusão bem sucedida, de organizar uma tão importante obra.” (…) “A direção desta obra tem dificuldades, estamos longe da Casa Mãe, estamos sob contínua pressão das autoridades civis (e vós não ignorais como são tais autoridades nesta província), do Bispo, etc., e às vezes estamos em difíceis situações em que é necessário um grande espírito de conselho e prudência.”
  1. HUMPATA, 1883:
  • Artur de Paiva, recém-nomeado Chefe do Concelho da Humpata, tem dificuldade em controlar os bóeres, que começam a transparecer rebeldia e autoritarismo, assim como despotismo para com os fracos. Tratam os negros com ódio. O Padre José Maria começa a perceber que além do “gentio”, também a eles, apesar de lhes terem garantido a liberdade do seu culto, terá de os evangelizar. Como sabe que têm interesse em que os seus filhos aprendam português, Antunes espera levar a Palavra divina para o interior das famílias bóeres através das crianças.
  • Entretanto, a Humpata recebe mais quarenta e um portugueses, vindos de Pungo-Andongo, onde fracassara mais uma tentativa de colonização. Compõem este grupo “salteadores e vadios requisitados às cadeias de Lisboa”. Expirado o período dos subsídios e ocorrido um homicídio por esfaqueamento, este grupo abandona a Humpata “deixando as terras como no dia em que ali chegou”.
  1. HUÍLA, 1883:
  • O Padre Duparquet reitera as capacidades de José Maria Antunes para dirigir a obra: “O Pe. Antunes é um sujeito de talentos extraordinários (…). Tem tudo a seu favor: a ciência, os talentos, as belas-artes, a distinção das maneiras, a elevação do carácter, a grandeza de visão, a amabilidade, a devoção, o zelo apostólico. Ele está à altura da sua posição. Ele é adorado por todos nessa província e singularmente amado e estimado tanto pelo Bispo e pelo clero, como pelo Governador-Geral e pelo Governador do Distrito. Eu vejo este padre como a base desta obra.” “O Pe. Antunes tem sido, pode dizer-se, sacrificado por esta obra. Não se pode ilustrar tudo o que este pobre padre tem feito para assegurar o sucesso. O seu trabalho é tal que frequentemente não se deita senão à meia-noite e já várias vezes caiu doente por excesso de fadiga.
  • Concluída a estrada carreteira entre a Bibala e a Huíla, a povoação crescia, sendo dotada de um posto de correio nesse mesmo ano. A administração fica a cargo de Artur de Paiva, integrando bóers na Comissão Municipal.
  • O Padre Antunes, não obstante as suas absorventes ocupações evangelizadoras, torna-se membro da Sociedade de Geografia de Lisboa, a instituição que mais ativamente articula as ações estratégicas coloniais.
  • O Governador de Mossâmedes, em carta para o Secretário-Geral de Angola, datada de 8 de outubro de 1883, informa: “(…) As condições do alojamento aos seminaristas quando estes vieram de Luanda foram se não ótimas, porque ainda os edifícios não estavam concluídos, ao menos regulares, tanto que o próprio Reverendíssimo Senhor Bispo os acompanhou para esta vila, onde tiveram boa casa, e para a Huíla, hospedando-se todos ali bem acomodados em dormitórios apropriados e acham-se com boa saúde, corados e bem nutridos.” “Os seminaristas são onze, que tantos foram para a Huíla, e ainda não foi admitido mais algum. Um deles é de idade de trinta anos e todos os mais são menores de dezasseis. “Além destes seminaristas educa mais a missão os seguintes: internos pretos dezoito, seminaristas dois, alunos do colégio oito, todos por conta da missão e frequentam a escola doze externos, filhos da povoação da Huíla. A delegação da missão no Humbe também dá escola a bastantes alunos e alunas externas.” “(…) a da Huíla e delegação desta no Humbe tem trabalhado bastante materialmente na construção de edifícios, aclimatação de árvores, cultivo de hortas e ajardinamento de terrenos ao lado do ribeiro (Mucha), que até lhe proporciona tanques apropriados para banhos e natação dos alunos, e moralmente trabalha com assiduidade, bom exemplo (…).” “A Sociedade de Geografia de Lisboa fez ver a este Governo-Geral a conveniência de haver na Huíla ou na Humpata, um posto de observações meteorológicas feitas às horas locais estabelecidas, para o estudo do clima e simultaneamente, duas vezes por dia, pelo sistema americano, para subsídio do estudo geral da meteorologia do globo; (…).”
  1. HUÍLA, HUMPATA e LUBANGO, 1884:
  • Capelo e Ivens relatam o que nesse ano viram: “A missão, que está colocada em risonho vale por onde serpeia pitoresco rio, compõe-se de vastos estabelecimentos bem construídos, cercados de jardins, hortas e terras de semeadura, devido tudo a grande esforço e trabalho, tendo que drenar as terras em grande extensão, e dirigir as águas do rio; é nesse aprazível sítio onde mais agradavelmente se passa na Huíla, e o recém-chegado se sente satisfeito ao entrar no gabinete de leitura. Exultámos ao ver o sentido prático que a missão dá aos seus trabalhos, a par daqueles da catequese, derramando na área da sua ação o gosto pelos labores de toda a ordem, principalmente agrícolas.”
  • Em 8 de abril é criado oficialmente o Colonato da Humpata. O Chefe da Humpata, em carta ao Padre Antunes, solicita os serviços da Missão da Huíla: “… os colonos [madeirenses] chegados ultimamente e mesmo grande parte de bóeres, acham-se perigosamente doentes. Pelos carros não veio ambulância nem médico e é de extrema necessidade o socorrer esta pobre gente; por isso atrevo-me a pedir a V. Reva. queira solicitar que o sr. doutor da missão aqui venha por alguns dias e traga consigo os medicamentos indispensáveis. As despesas serão pagas pelo governo, a quem competia ter providenciado a tempo. Como alguns dos colonos católicos se achem em perigoso estado de saúde, serão também necessários os serviços de V. Reva.. Rogo, pois a V. Exa. se digne aceder ao meu pedido, pelo que desde já ficarei grato.”
  • José Maria Antunes celebra, no local dos Barracões, no Lubango, sob uma pequena árvore, a primeira missa do colonato - em que já estavam instalados 211 colonos, marcando-se assim a sua inauguração.
  1. HUÍLA, 1885:
  • Nas Missões da Huíla e do Humbe, contam-se conjuntamente 12 Padres e 12 Irmãos auxiliares. 3 Irmãs educadoras chegam à Huíla. A Missão central dispõe já de uma estação de correio própria, de “primeira classe”. Todo o comércio do Ovampo se faz pelo Humbe, e daí transita para a Huíla, a caminho do porto de Mossâmedes.
  • Artur de Paiva expõe ao Padre Antunes as suas necessidades de equipamento, material imprescindível para a exploração do território entre o Cubango e o Cunene. O prestimoso José Maria, colaborando com a autoridade, empresta-lhe um ótimo sextante francês de Secrétan e um horizonte artificial. Nas expedições militares, Paiva conta com a participação dos bóeres - homens e mulheres. A sua perícia como condutores dos grandes carroções torna-se essencial para a logística militar. São exímios cavaleiros e atiradores, devido à sua grande prática em atividades de caça. Pela participação nas campanhas militares, recebem um salário diário fixo - uma libra por dia, ou duas, se têm montaria própria - às vezes dobrado durante os dias reais de luta, mais extras para cada cavalo e carroça, e 50% de todo o gado saqueado. Cavalos, bois ou carroções perdidos nas batalhas são-lhes indemnizados e a munição fornecida gratuitamente. Modernos rifles são oferecidos aos que têm modelos antigos. No que respeita à população muíla, os recém-chegados colonos bóeres expulsam-nos das melhores terras e saqueiam-lhes gado. Uma cláusula do contrato de concessões de terrenos firmado com os bóeres expressamente dispunha que um “terreno cultivado pelo gentio é propriedade deles” e que “não podem tirar-lhes o mesmo”, mas na verdade as tolerantes autoridades locais fazem “vista grossa” aos desmandos.
  • Câmara Leme, diretor do colonato do Lubango, pede emprestado ao Reverendo Antunes um aneróide. Na mesma altura, envia à Huíla amostras de duas qualidades de barro, para que lhe digam qual a melhor para fazer um forno. Pede também à Missão o empréstimo de uma forma de telha, pois não podiam continuar a utilizar capim para cobrir as habitações - ou estava degradado pelo clima ou era alvo de ataque de insetos.
  1. HUÍLA, 1886:
  • Em abril de 1886, Câmara Leme agradece ao Diretor da Missão a oferta de um estojo meteorológico, e em maio agradece o arranjo do relógio e da luneta do teodolito.
  • Em junho, Antunes elabora um relatório para o Ministro do Ultramar, onde relata o que nos cinco anos foi feito: “Ao lado do seminário criei um colégio, no qual, mediante uma pensão acomodada às famílias as menos abastadas da província, as crianças da classe média da sociedade possam adquirir uma instrução séria e uma educação sólida e cristã. Quarenta e um têm até hoje frequentado como internos estes dois estabelecimentos; alguns deles já cursam teologia. Bom número de crianças pertencentes aos colonos de Huíla e aos indígenas dos arredores da missão frequentam, como externos, os cursos do seminário, no qual podem receber não somente a instrução primária, como também a secundária, em conformidade com o programa do estabelecimento, que é o mesmo que o dos liceus do reino. Três edifícios ou linhas de casas paralelas, separadas por vastos terreiros, para recreio dos alunos, constituem estas duas obras: a saber: 1º, um edifício de 40 metros de comprido e 6 de largo, com terreiro, horta, tanque e pomar, serve de aposento aos seminaristas; 2º, um outro corpo de edifícios, de 60 metros de comprido, paralelo ao primeiro, constitui o colégio; 3º, uma terceira linha de edifícios, de outro tanto de comprido, forma as dependências destas duas obras. Três oficinas estabelecidas nesta última, e dirigidas por bons mestres europeus, agregados à missão, permitem ensinar tanto aos filhos dos colonos, como aos dos indígenas que frequentam o estabelecimento, os ofícios de carpinteiro, serralheiro e ferreiro. Por diante destes três edifícios, situados no declive de uma colina, estende-se o vale da Mucha, por onde serpenteia o rio do mesmo nome. Numerosos eucaliptos, plantados pela missão nas margens deste rio, e belas alamedas de pessegueiros, laranjeiras e amoreiras, que se desenvolvem com espantosa rapidez,(…) Em frente do seminário-colégio e na margem oposta do rio Mucha, eleva-se o orfanato da missão (…) Cinquenta e cinco órfãos indígenas recebem neste estabelecimento, (…), uma educação cristã e uma instrução quer intelectual, quer profissional, adequada a inteligência e aptidão de cada um. (…) O tempo dos nossos órfãozinhos está dividido entre o estudo e o trabalho, quer profissional, quer agrícola. (…) Uma grande porção de terreno cultivado por nossas crianças estende-se ao longe em roda do edifício. Do lado direito uma magnífica horta, cujos produtos eles vendem ao seminário, e cuja importância reverte em benefício do orfanato (…). Desde o primeiro ano um trabalho colossal teve de executar-se; foi a canalização do rio Quitembo, desviando-o do seu curso ordinário para o encaminhar pela terra da missão. Graças aos esforços dos nossos órfãos, este canal está hoje concluído, e alimenta com suas águas quatro grandes e magníficos tanques, que, situados de um e outro lado da casa, além de abastecerem de água as plantações, embelezam sobremaneira a propriedade. Do lado esquerdo estende-se um belo pomar. (…) laranjeiras, nespereiras, macieiras, figueiras, romãzeiras, amoreiras, pessegueiros, damasqueiros, goiabeiras, bananeiras e jambeiros (…) trigo, a cevada, o centeio, a batata europeia (da qual introduziu a missão uma coleção de cinquenta espécies no planalto da Huíla), a batata-doce, a mandioca, o feijão, o milho e o sorgo (…). Uma plantação de cem pés (…) forma o olival da missão. (…) Antes do estabelecimento da missão contava o distrito como estabelecimento de educação duas escolas primárias em Moçâmedes, uma para o sexo masculino, outra para o sexo feminino, e uma escola na Huíla, apenas frequentada por meia dúzia de crianças, se tanto. Com o estabelecimento da missão, achou-se dotado o distrito com uma escola na Huíla, outra no Humbe, dois orfanatos para indígenas, um na Huíla, outro no Humbe, com escola profissional; e, finalmente, um seminário e um colégio com o curso completo de preparatórios e de teologia, (…) fundando ao lado do seminário o colégio de que já acima falei, em condições tão favoráveis que a instrução é em realidade gratuita e ao alcance das famílias as menos abastadas, (…). (…) o número total das crianças a quem no ano de 1885-1886 a missão ministrava o benefício tão precioso da instrução, era de cento e trinta e quatro. (…) Convencidos que a agricultura é um dos ramos de riqueza o mais estável para uma colónia, não cessamos desde o estabelecimento da missão de desenvolvê-la, não só nesta obra, e especialmente no orfanato agrícola, mas também promovendo-a entre os colonos da Huíla, já repartindo com eles as coleções de sementes de cereais e legumes, etc., que possuímos, já mandando-lhes vir das fábricas da Europa instrumentos agrários e máquinas aperfeiçoadas. O tosco arado fabricado na Huíla, e o único conhecido antes da vinda da missão, acha-se hoje substituído pela tão elegante e tão útil charrua Howard; a incómoda grade de madeira, pelas grades articuladas de ferro; o modo tão primitivo de debulhar o trigo, fazendo-o pisar por bois, está hoje substituído, quase por toda a parte, pelo método da debulhadora, com motor vertical de Pinet. As máquinas a vapor já se vão introduzindo, e a primeira que se viu no planalto trabalha atualmente na missão, e move uma serra mecânica e um moinho. Por meio destas máquinas agrícolas e de muitas outras, todas introduzidas e propagadas pela missão, a agricultura tem tomado muito maior incremento; e veem-se proprietários que ao chegarem à missão não podiam colher mais do que 50 a 8o alqueires de trigo, e que hoje, graças ao emprego de instrumentos aperfeiçoados, podem colher 800 a 1000 alqueires.”
  1. HUÍLA e JAU, 1890:
  • “Estatística das missões da Huíla e Jau (fundada em 1889):
  • Educandos: Seminaristas, 45. Indígenas masculinos 170, femininos 85.
  • Habitantes da aldeia cristã no Jau: femininos 10, masculinos 10.
  • Produção agrícola: Trigo, 1.000 arrobas; Batata inglesa, 1.200 arrobas; Feijão, 400 arrobas; Ervilha, 200 arrobas; Milho especial, 1.000 arrobas; Cará, 1.000 arrobas; Árvores frutíferas, 3.264; Vinhas, 1.500; Viveiros de árvores, 10.
  • Motores: de 12 cavalos, 1; de 4 cavalos, 1.
  • Engenhos e máquinas industriais e agrícolas: Aparelhos para serração de madeiras a vapor, 2; Engenho de moer cereais a vapor, 1; Engenho de moer casca para a curtição a vapor, 1; Engenho para moer casca movido por bois, 1; Perfurador mecânico, 1; Tornos, 2; Aparelho para mover o torno à força de animais, 1; Amassador mecânico para o pão, 1; Moinho d'água, 1; Raspador, 1; Triturador, 1; Limpador, 1; Arados, 4; Debulhadoras manuais, 2; Aparelhos de destilação, 2.
  • Área cultivada, 50 hectares.
  • Espécies pecuárias: Caprino, 20; Lanígero, 20; Gado bovino, 180; Jumentos, 15; Éguas, 2; Cavalos, 3.
  • Carros: De passeio, 3; Nacionais de duas rodas, 4; Vagons de quatro rodas, 4.
  • Oficinas e fábricas: Destilação, 1; Padaria, 1; Cerveja, 1; Fotografia, 1; Encadernador, 1; Tipografia, 1; Oleiro, 1; Alfaiate, 1; Sapateiro, 1; Curtição de couros, 1; Carpinteiro, marceneiro e torneiro, 1; Funileiro, 1; Serralharia, 1; Serração de madeira a vapor, 1.”
  1. LISBOA,1892:

É publicado em Lisboa “O Districto de Mossamedes”, do Dr. Pereira do Nascimento. No capítulo em que se descreve detalhadamente a Missão Católica da Huíla, é salientada a tenacidade do padre José Maria Antunes, louvando-se a sua obra, considerando-a desde já como uma epopeia civilizacional. No livro, o ilustre Médico da Armada Real salienta o modo como se leva a cabo a ação dos missionários da Congregação do Espírito Santo, ao contrário “dos que buscam enriquecer lisonjeando e explorando os hábitos indígenas com a mira em gananciosos interesses, pervertendo e embrutecendo o negro.” Vinca que o objetivo de “concitar os indígenas a procurar amistosas relações com a raça europeia” só poderá ser alcançado com a paciência e dedicação do missionário, de modo a tratar os indígenas “com brandura, patentear-lhes bons exemplos e convidá-los por meios suasórios a imitá-los.”

  1. HUÍLA, 1892-1894:
  • O Padre Antunes funda a Missão do Tchivinguiro, em terrenos comprados a particulares. Em 1893 é fundada a Missão da Quihita e em 1894 a do Cubango.
  • A biblioteca da Missão da Huíla conta com 4000 volumes.
  1. HUÍLA, 1894:

     José Maria Antunes concebe e propõe ao Ministro do Ultramar um vasto projeto de criação de 20 Missões, estrategicamente distribuídas por todo o território de Angola, a partir de quatro polos – Malange, Caconda, Cassinga e Huíla.

  1. HUÍLA, 1895:

     Numa carta para o Bispo, Antunes relata: “está fundada a Missão de Santo António da Mulola dos Gambos. Como tudo estava preparado de antemão, inclusive portas e janelas, levámos daqui seis grandes vagões com todo o material, móveis, capela, fornecimentos e partidos a 24 de Agosto, regressava eu à Huíla com os carros a 10 de outubro. “Construiu-se uma casa de 10 metros de comprido e 6 metros de largo, dividida em três quartos, sendo: um para habitação dos missionários, um outro para capela e um terceiro para sala de jantar. Esta casa é elegante de construção, de 5 metros de pé alto, com alicerces de pedra muito sólidos e construída de adobe muito bom. Ao pé da mesma fez-se um barracão de quase igual superfície, coberto de telha de ferro, como a casa dividido em dois quartos, sendo um para dormitório dos 12 rapazes que hão-de casar-se para o ano que vem e constituírem a aldeia e outro para arrecadações. Estas duas construções levaram 16 dias a construírem-se, mas havia a trabalhar perto de 100 pessoas, seis vagões e perto de 120 bois de carro!”

  1. HUÍLA, 1898:

     Funda-se a Missão do Munhino, em terrenos já adquiridos pela Missão da Huíla.

  1. HUÍLA, 1899:

Antunes escreve ao Bispo: “(…) as Missões do Planalto continuam sofrendo novas provas, depois das que experimentaram há um ano com a peste bovina. A inundação que tão desastrosa foi para a Missão do Quihita causou também não poucos danos à da Huíla. Desde há um ano para cá tínhamos empreendido no vale da Missão trabalhos importantes de drenagem, construção de uma ponte, abertura do leito do rio Mucha e de muitas valas laterais para dar escoante às águas pantanosas e estagnadas. (…) Todo o vale fora lavrado e plantado e tinha-se feito uma plantação de milho, feijão e mais legumes no espaço de 12 hectares, cujo rendimento devia dar para o custeio de todas as despesas feitas com os trabalhos de drenagem. A inundação, no espaço de algumas horas, arrebatou tudo, destruindo em grande parte os aterros que tínhamos feito, entupindo as valas e cobrindo de areia todo o vale. A esta calamidade veio juntar-se uma tromba que levou pelos ares uma parte do telhado do edifício do Seminário, o telhado da casa da entrada, o da casa de fabrico de cerveja e o da torre contígua; o meteoro percorreu depois o jardim experimental, arrancando eucaliptos, bananeiras e outras árvores frutíferas. O que, porém, mais me preocupa são os danos sofridos na Missão do Quihita. A casa definitiva de habitação, situada no cimo do monte, estava muito adiantada, as paredes mediam mais de 2 m de altura; tinham-se feito dois caminhos suaves para da planície se subir ao monte, um deles podia ser transitado por carros, tinham-se preparado para acabar a construção grande número de materiais, pedra, adobe, etc. Tudo fica inutilizado, pois é indispensável abandonar todos os edifícios, dos quais só as madeiras, e telha se poderão utilizar. A Missão tem de ser mudada; todas as árvores foram arrancadas com a força da corrente e os campos cobertos com uma camada de areia de mais de um metro em alguns sítios. É como se tivéssemos que fazer uma nova fundação.

  1. HUÍLA, 1902:
  • Antunes adquire e instala novos aparelhos Richard de registos higrométrico e térmico para o observatório meteorológico da Huíla.
  • O Bispo de Angola informa o Ministro do Ultramar: “A linha de missões deste planalto chega hoje ao Humbe, onde se instalou a missão do Chipelongo (que no orçamento vem com o nome de Quiteve) já em florescente atividade e que veio substituir a missão há 20 anos estabelecida junto da fortaleza. Pode asseverar-se que estas missões têm já resultados práticos na obra de evangelização e civilização, gozando das simpatias e confiança dos indígenas. Assentes os oito postos missionários destacados da central da Huíla e que vão do Chivinguiro ao Chipelongo, entre si intimamente relacionados como escala e abastecimento de uns para outros, o que constitui uma sólida garantia de futuro, podemos agora avançar para a região da Dongoena, na margem direita do curso médio do Cunene, e estender lá a benéfica influência das missões.”
  1. LISBOA, 1904-1920:
  • José Maria Antunes é nomeado Procurador-Geral das Missões, cargo que exerce em Lisboa. À data de 15 de fevereiro de 1911, a Congregação do Espírito Santo conta com 24 missões em Angola, em que trabalham 70 missionários, outros tantos auxiliares e perto de 3 dezenas de Irmãs educadoras.
  • Antunes é investido como Provincial da Congregação em Portugal, responsabilidade que exercerá durante quinze anos. Em contexto político de grande animosidade anticlerical, desenvolve todos os esforços junto do Governo Republicano instaurado em 1910, vindo a conseguir em 1919 garantias legislativas para a continuidade do trabalho nas missões.
  1. ATIVIDADES CULTURAIS DA MISSÃO DA HUÍLA (segundo o Pe. Bonnefoux, em 14 de Março de 1911):

“(…) Esta missão publicou alguns livros sobre a língua «Lunyaneka», falada numa grande parte do planalto da Huíla e uns catecismos na mesma língua. Eis os títulos destes trabalhos:

  • — Diccionario Portuguez-Olunyaneka, pelos padres Missionários. 1896.
  • — Resumo da Doutrina christã, pelo Padre Lecomte, vertido em Lunyaneka pelo Pe. J. M. Antunes. 1898.
  • — Catecismo das Verdades necessárias, por Mgr. Le Roy, vertido em Portuguez-Olunyaneka pelo Pe. Manuel Gonçalves Bras. 1900.
  • — Os Sacramentos, por Mgr. Le Roy — Lições. Vertidos em Portuguez-Olunyaneka pelos missionários. 1902.
  • — O Mateya-Mutima. Máximas em Olunyaneka, pelo padre Eugénio Dekindt. 1902.
  • — Resumo da Doutrina christã em Portuguez e Olunyaneka, pelo Pe. Luis Barros da Silva. 1906.
  • — Guia de Conversação Olunyaneka, pelo Pe. José Severino da Silva. 1908.
  • — Ensaios de Grammatica Nyaneka, pelo Padre Afonso Maria Lang. Lisboa, 1906.
  • Okandyanlula K’onondaka mba Tatekulu Jesu-Kritu - Resumo da Doutrina Christã em Olunyaneka, ao uso das Missões da Huíla. 1910.
  • — No prelo nova edição do Guia de Conversação.

“Na tipografia que existe na Missão desde 1890, além dos trabalhos acima indicados, menos os «Ensaios de Grammatica Nyaneka» pelo Pe. Afonso Maria Lang, que foram impressos em Lisboa, tem-se imprimido

  • alguns livros de Doutrina Cristã pelo Padre Lecomte, em Cuanhama, Ganguela e Mbundu,um Dicionário Portuguez-Kimbundu, do Dr. José Pereira do Nascimento, do mesmo autor «Da Huíla às terras de Humbe» e «Questões Médico-Coloniais relativas à colonização europeia no planalto».
  • Diversos folhetos relativos a questões administrativas e regulamentos para uso do Governo da Huíla;
  • ultimamente, enfim, dois opúsculos do Exmo. e Revmo. Sr. Bispo d’Angola e Congo, «Alocução na Solene distribuição de prémios aos alunos do Seminário Diocesano. Luanda» e «Arte e Sciencia». Raphael».”

“A Missão teve até este último ano um observatório, que infelizmente foi destruído pelas chuvas muito abundantes de princípio de 1910.

“Tem-se empreendido uma coleção de plantas medicinais, cujo herbário contém até agora mais de 200 plantas, das quais algumas foram experimentadas com resultado.

“Deu-se princípio a uma coleção mineralógica das rochas representadas na nossa região. O Revmo. Sr. Padre Antunes e o Revmo. Sr. Padre Severino fizeram à Academia Real das Ciências umas comunicações sobre mineralogia e geologia.

“O Revmo. Sr. Padre Dekindt mandou a diversas sociedades científicas herbários e descrições de vários exemplares da flora indígena.

“Ao Exmo. e Revmo. Sr. Padre Antunes, fundador destas missões, foi concedida pelo Governo Português a condecoração da Ordem de Cristo. A Sociedade de Geografia de Lisboa nomeou-o membro correspondente, assim como ao Revmo. Sr. Padre José Severino da Silva. Este último é, além disso, sócio correspondente do Ateneu Comercial do Porto.

“Na Exposição Colonial da Sociedade de Geografia, de 1906, a Missão dos Gambos recebeu uma medalha de prata. Na Exposição Regional que se realizou no Lubango, em Novembro de 1910, um prémio pecuniário foi atribuído à missão do Munhino.”

  1. HUÍLA, 1912-1926:
  • Em 1912 é iniciada a construção da monumental igreja da Missão da Huíla, que virá a ser aberta ao culto em 1930. Os colonos de todo o planalto seguem a tradição de celebrar na Missão os seus matrimónios e de nela batizar os seus filhos.
  • Em substituição da do Chipelongo, em 1916 é fundada a missão do Chiulo.
  • Em 1926 é fundada a missão de Omupanda, na região do Cuanhama.

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