Uma apaixonante e esplendorosa terra, um magnífico povo! Será brilhante seu futuro, construído por todos os que têm Angola no coração, que nela ou na diáspora trabalham e com amor criam suas famílias.
Sexta-feira, 18 de Dezembro de 2020
Arlindo Barbeitos e o racismo

arlindo-barbeitos.jpg

Como é sabido, Barbeitos é conhecido como Poeta Angolano. A quem interessar, a ligação para o seu Curriculum Vitae é https://www.yumpu.com/pt/document/read/7207479/professor-arlindo-barbeitos-curriculum-vitae-adelino-torres. Contando 79 anos, na sua rica vivência sobressai o envolvimento com a causa nacionalista, desde jovem. De um seu texto publicado em francês (*) extraímos os seguintes excertos, que traduzimos, eperando não desvirtuar o seu estilo literário.

 

Na minha infância e adolescência, a interpenetração social facilitou a criação de espaços comuns. Ela se concretizou em brincadeiras e diversões infantis, no desporto, em bailes populares e em muitos dos momentos únicos que a vida em África possibilita. Tais experiências são tão cativantes que marcam para sempre, para lá da sua origem, todos aqueles que as compartilharam e certamente contribuem para determinar a sua construção identitária.” (…) “A vivência direta desses momentos, de grande intensidade, quando as fronteiras traçadas entre as pessoas se turvavam ou se desvaneciam, produzia a imagem fugaz mas persistente de uma virtualidade desejável e possível que se opunha ao cinzentismo circundante.” (...) “Nos tempos coloniais, o Branco desprezava o que nele havia de Negro, e o Negro tinha ciúme do Branco que nele estava. Agora que o Branco se foi, o mestiço o substituiu. O ciúme não desapareceu, mas transformou-se numa espécie de raiva contra ele, alimentada pelo sentimento racista. Seja no passado ou no presente, o racismo está sempre ao serviço de interesses e dissimula os meios a que as pessoas recorrem para os satisfazer. Originalmente, as raças nada têm a ver com isso, mas tornam-se num ingrediente essencial quando se crê na sua responsabilidade. A questão racial esconde, portanto, as reais questões e as motivações dos atores.” (...) “É aí, no seio desta acidentada gestação, produzida por todos os antagonismos, solidariedades e incompreensões, pelos desastres e pelas alegrias que o confronto dessas forças gerou, que as identidades nascem e morrem. Estas, como as raças, as etnias, as nacionalidades e os documentos de identificação, são entidades que criamos inconsciente ou conscientemente. Elas representam categorias mentais e construções sociais e políticas. Nesse sentido, somos todos homens imaginários! Depende, pois, sobretudo de nós, e não de uma fatalidade biológica, geográfica ou histórica, que qualquer identidade, negra, branca, mestiça, kikongo ou outra, transforme em cicatriz ou pele rejuvenescida esta ferida aberta que é Angola. Nossa raça, nossa etnia, nossa nacionalidade, nossa identidade, são apenas a face singular e mutante desse ferimento. Aberto ou curado...

 

(*) Arlindo BARBEITOS, Lusotopie 1997, pp. 309-326


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publicado por zé kahango às 00:19
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