Intensa paixão, tristeza profunda, sagrada esperança...
Terça-feira, 18 de Março de 2014
Contos do Vissapa - 7

A "loja do mato" está e estará no meu imaginário para sempre. Nunca houve nada tão singelo e simples como elas e vendo bem as coisas contribuíram para o maior intercâmbio de culturas da história de Angola.

 

BELUNGA - O ESPIÃO DO CALOR

 

Há duas coisas que nunca existiram neste mundo de Deus e nem mesmo a imaginação mais fulgurante e profícua poderia alguma vez conceber a sua existência. Mas acreditem ou não existiram e eu sou testemunha. Uma era o Tchicututilo e outra era o Belunga, e ambas completavam-se como o “Suiuio” em pena de galinha. O Tchicututilo era uma povoação de duas casas e um casebre encravada em nenhures, muito para lá do sol-posto. Para se chegar lá eram precisas carradas de paciência, fé em Deus e uma carrinha GMC do princípio dos anos cinquenta ou uma Ford do final dos quarenta, pelo menos eram as duas viaturas que eu conheci lá para aquelas bandas, com a honrosa excepção do meu Willys com motor Hurricane. O chão do Tchicututilo era de um rubro alaranjado e os mutiátis salientavam-se verdejantes crescendo desordenados por todo o lado. Os morros de Salalé pareciam dedos terrosos apontados ao céu e muitos outros acostavam-se às espinheiras servindo-se delas como escoras. A loja do João Rebelo (Camundongo) ficava à entrada do lugarejo, e a do Manel Serra (O Chiça) à saída, algo que não estava perfeitamente definido pelos dois comerciantes e suscitava um constante desaguisado. Na verdade quando o Rio Mutupuka engravidava das águas serranas a posição invertia-se. O Camundongo passava para a saída e o Chiça para a entrada. Deixem-me explicar. Era preciso dar a volta por trás da serra para se chegar ao Tchicututilo. Depois de alguns amuos mais ou menos prolongados entre os dois, concordaram mutuamente em colocar duas tabuletas amarradas com arame a dois bocados de carril de caminho de ferro, um em cada entrada ou saída, conforme havia chuva ou não. Eu o Willys e o Belunga, o meu ajudante de campo, vivíamos no meio destas duas almas perdidas num casebre do comerciante pioneiro do Tchicututilo o velho Cabaça que morrera no final dos anos trinta e só fora encontrado no inicio dos quarenta. Muita chuva para aqueles lados na época. Eu dividia o único aposento coberto da ruína com duas osgas que pareciam jacarés de tanto insecto comido e uma cobra rateira que ziguezagueava o tecto de capim durante a noite. Nada de mais. O Belunga, ave pouco dada a capoeira dormia no alpendre das traseiras junto ao teodolito e ao saco da tenda que só usávamos quando tínhamos de dormir longe do Tchicututilo por exigência do meu trabalho de topógrafo. A loja do Rebelo era em tudo igual à do Serra, com a subtil diferença de uma se localizar à esquerda e outra à direita da picada que cruzava o lugar, isto é, se não chovesse. Ambas tinham sido concebidas arquitectonicamente com arrojo, aquilo que hoje se chama de arquitectura minimalista. As típicas lojas do mato. Um rectângulo com duas janelas e uma porta ao meio destinado a habitação. Outro rectângulo de maior dimensão colado ao primeiro, mas apenas com uma janela e uma porta destinado ao comércio. Nunca cheguei a saber se houve plágio do projecto mas eram iguais como duas gotas de água. Ambas com cacimba, sambo para o gado, mamoeiros, uma mangueira e uma data de penosas e patos mudos esgaravatando aqui e ali em busca de bicharada na areia vermelha. Por vezes a criação atrevia-se a incursões aos sacos de serapilheira atulhados de Massambala, massango e milho, especados como sentinelas á porta dos estabelecimentos. As mesmas rodas de bicicleta penduradas no tecto, dezenas de garrafas de vinho Royal alinhadas na prateleira como soldados, samacacas, kamberiquitos, caixas de remendos, rolos de cangonha, rodas pedaleiras, maços de papel de embrulho entulhados de Francesinhos, Caricocos, Morenitas e Francês Galo. O Camundongo e o Chiça abriam e fechavam as lojas à mesma hora num ritual único. Cada um deles colocava uma gaiola com uma bengalinha e um bigodinho no prego espetado na parede de adobe. Um tinha uma Ford o outro uma GMC e bem contadinhas as cabeças de gado nos sambos não deveriam variar muito em quantidade. A clientela era fundamentalmente a mesma, trazendo bois e cabritos e levando cobertores, samacacas e bicicletas e açúcar mascavo para a fabricação de água-ardente de Mangongo. Eu abastecia-me alternadamente num e noutro para não arranjar atritos e o churrasco picante ou era na casa do Rebelo aos sábados ou na do Chiça aos domingos. O Belunga, o meu porta-miras travara-se de amizades com os dois comerciantes e passava horas a tagarelar em bundo com um ou com o outro, conforme o dia e a loja e eu sem perceber patavina. Deixou de me pedir adiantamentos e ao fim de seis meses já tinha uma bicicleta zero quilómetros, dois kamberiquitos novos, três cabritos e uma nema, sem contar com as garrafas de Macieira vazias espalhadas no alpendre. Estranhei a fartura repentina e resolvi perguntar-lhe o que se passava. - O negócio é o seguinte o Camundongo me solicitou para ver os preço das mercadoria da loja do Chiça para fazer os comparação e me dá umas propina – Ai é? Exclamei espantado. – E então o Chiça não desconfiou? - Não desconfiou não, ele me pediu para fazer o mesmo na loja do Camundongo. Assim todo o mundo está contente e não precisa discutir mais qual os entrada ou os saída do Tchicututilo.

 

 

Reis Vissapa


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publicado por zé kahango às 10:27
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