Intensa paixão, tristeza profunda, sagrada esperança...
Quarta-feira, 5 de Março de 2014
Contos do Vissapa - 5

O MUCUBAL E O MALHADO

A residência de Kapingala estendia-se desde o Capolopopo à Pediva e em tempos de maior aridez podia chegar até ao Iona onde quase sempre havia pasto abundante. Kapingala um mucubal bem constituído com cerca de um metro e oitenta de altura e sem pinta de qualquer gordura extra percorria o seu território ancestral solitariamente, quase desde que dera os primeiros passos no deserto do Namibe. Um turbante de cor indefinida cobria-lhe a carapinha encrespada e na lateral do mesmo estava incrustado uma espécie de pente alongado de um dente só que servia para entrelaçar os cabelos. Junto aos caninos salientes tinha pespegada uma diminuta folha de oliveira em latão que lhe permitia falar com o seu rebanho. Uns nonkacos de pneu calçavam-lhe os pés curtidos e uma vara longa completava indumentária juntamente com um javite encaixado na piaça de couro que segurava o malapi. Ao pôr-do-sol dir-se-ia um Deus recortado na imensidão do deserto. O rebanho que pastoreava deveria ter para aí uns trinta animais que o boi de pelo castanho avermelhado com manchas brancas comandava com autoridade mugindo de vez em onde o seu vozeirão, balançando os cornos enormes com quase um metro de distância entre as hastes. O Malhado era o seu ai Jesus e homem e animal pareciam poder comunicar. Volta e meia ia até às imediações da Oncócua onde trocava duas ou três cabeças por um sobretudo militar novo, tabaco e um dois kamberiquitos para se proteger das madrugadas frias.
O seu tio Namgombe era uma espécie de Onassis do deserto. Quando lhe perguntavam quantas cabeças de gado possuía limitava-se a agarrar num punhado de areia e respondia que tantas como as diminutas pedrinhas que tinha na mão. Kapingala era filho da sua irmã Kasinda e culturalmente seria seu herdeiro por comprovada consanguinidade. Ambos não nutriam grande simpatia um por outro e Namgombe troçava da pobreza de Kapingala em matéria de gado. Por outro lado cobiçava o Malhado que via como um touro excelente para as suas imensas manadas chegando a oferecer-lhe cinco garrotes e três nemas por o bicho, proposta que Kapingala desdenhou. Certa ocasião Kapingala apaixonou-se perdidamente por uma bicicleta a pedal que o velho Aranha tinha para venda na sua loja do mato na Oncócua, pendurada do tecto. O velho Aranha tal como Namgombe cobiçava o Malhado que se dizia falava com o dono e por o mesmo possuir a fidelidade de um cão em relação ao proprietário. Nestas negociatas do mato tanto Namgombe como o Aranha esqueceram que amizade e fidelidade não se compram num sambo qualquer, mas são de facto fruto de um companheirismo e partilha de espaço e vicissitudes diversas durante longos anos.
Depois de muito regatear com o Aranha, Kapingala tremendamente entristecido acedeu a negociar o seu boi de estimação indo este parar ao sambo do astuto comerciante. O Mucubal cedo se apercebeu que bicicleta não era própriamente veículo para o deserto depois de sucessivos furos e pneus rasgados que o obrigaram a largar uma nema na loja do Aranha a troco de dois pneus, uma caixa de remendos e uma corrente para a roda pedaleira. Ao fim dois meses e verificado o trágico negócio que fizera atirou com a bicicleta por um barranco abaixo. Quando Namgombe soube do negócio de Kapingala arquitectou um plano diabólico para conseguir o Malhado e deixar o sobrinho em maus lençóis. Pela madrugada quando o deserto dorme passou pelo sambo do Aranha e com silvos tirados com a folhinha de oliveira logrou levar o Malhado atrás de si até o prender num dos seus cercados.
Quando Aranha deu por falta do bicho procurou Kapingala e acusou-o de roubo ameaçando fazer queixa na administração do Capolopopo. Este fez-lhe ver que o animal não estava com ele e convenceu o comerciante a irem fazer uma busca nos sambos de Namgombe onde descobriram o boi. Confrontado Namgombe com o furto do animal este negou e para provar a sua inocência abriu a porta do cercado e fez silvar a folhinha de oliveira em latão. O Malhado viu cá fora Kapingala e sai de lá desembestado e Namgombe põe-se à sua frente o que decretou a sua morte prematura com a marrada que levou. Nesse trágico momento Kapingala apercebeu-se que acabara por ficar o homem mais rico daquelas terras do Kuroca. O Aranha que conhecia a tradição mucubal propôs. – Kapingala podes ficar com o Malhado mas tens de me dar em troca cinca nemas e dois garrotes agora que herdaste essa fortuna toda. – Não Aranha, eu dou-te dez nemas e dez garrotes mas vais ter de mandar arranjar a bicicleta e quero dois pneus sobressalentes e cinco caixas de remendos e uma bomba para encher as câmara de ar. – E onde está bicicleta Kapingala? – Perguntou o comerciante acedendo à proposta. – Está lá ao pé da Pediva. – Respondeu-lhe o Mucubal. – Então leva lá à loja para eu mandar arranjar. – Ordenou o Aranha. – Não levo não Aranha. Vai lá procurar ela que eu também vim procurar o teu boi. Dizem que o velho Aranha procurou a bicicleta de Kapingala meses a fio sem sucesso e quando finalmente a encontrou só restava o quadro e o selim. Histórias de mucubais só acredita quem quer ou quem já foi enganado pelo Aranha.

Reis Vissapa


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publicado por zé kahango às 10:56
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