Intensa paixão, tristeza profunda, sagrada esperança...
Quarta-feira, 26 de Fevereiro de 2014
Contos do Vissapa - 3

 

 

O GARAJAU, A GAIVOTA E A SARDINHA

 

Estes acontecimentos baseados em factos verídicos desenrolaram-se no longínquo Namibe exactamente entre o Farol da Ponta do Pau do Sul, a magnífica Praia das Miragens e a Ponte Velha. Dom Garajau Real morava no Farol da Ponta do Pau do Sul mas ai de quem lhe desse esse nome que ele ia aos arames. – Ponta do Pau do Sul não, Ponta do Noronha que eu sou de linhagem real e não moro num casebre qualquer. – Grasnava irritado. A minha família sempre escolheu estas pontas como seus reinos. Vejam o meu primo Garrinco que mora na Ponta Albina, aliás está lá um faroleiro grande religioso que de vez em quando lhe dá umas sobras. O Simão Toco homem de grande religião. Infernizava a vida de toda a gente com esta prosápia vaidosa sobre a linhagem real. Ali não muito longe e meia saltarica vivia Miss Sardinha Viva, viva de mais que era mãe solteira e já tinha uma prole dos diabos. A Sardinha Viva passava o tempo a advertir as filhas do perigo em nadarem na maré transparente pois transformavam-se em presa fácil para os kandengues que tinham a mania de as pescar. – O século Carapau dizia-lhe em voz sábia: - Cuidado com essas suas meninas que têm a mania de se armarem em vaidosas a exibirem os bikinis prateados ali junto à areia Mana Sardinha. – Eu já as avisei Senhor Carapau. E não só há o perigo dos kandengues como aquele idiota do Garajau Real volta e meia faz uns voos picadados com intenção de papar uma das minhas donzelas. Que sem-vergonhice que vai por este mundo Deus. Até a mim que já não sou uma catraia quis papar o sem vergonha. Dona Gaivota Carlota ouvia estes diálogos na velha ponte carcomida pelas águas e com o esqueleto enferrujado à mostra e pensava para com ela que mais dia menos dia iriam assistir a uma tragédia na Praia das Miragens. Não desgostava do Garajau Real com aquela pôpa preta meia pedante que exibia vaidoso. De certa forma até tinha um fraquito pelo o aristocrata da Ponta do Noronha e ela não era de todo indiferente ao marau. Costumavam ficar juntinhos empoleirados num dos ferros da ponte a arrulhar um amor platónico. Mas ele com a mania de se exibir levantava voo e numa velocidade estonteante descia a pique com asas elegantes junto às penas e mergulhava no azul anil feito Tarzan – Este parvalhão qualquer dia dá-se mal com a brincadeira. Deixa-me aqui a falar sozinha eu que tanto queria que picasse sobre mim. Estas atitudes de vaidade e exibicionismo deviam-se em grande parte aos humanos que chafurdavam que nem loucos na água para atraírem a atenção das não menos vaidosas garinas da praia. Tudo isto era salutar e condizente com as zonas balneares principalmente em tempo de férias. Uma das coisas que irritava Dona Sardinha Viva eram as Manas Toninhas que sempre que ouviam o chilrear alegre dos Kandengues lá vinham com aqueles corpanzis de balzaquianas esparramar água para todo o lado não dando a mínima para o trânsito pacato que era apanágio do lugar. – Gorda não devia ter direito a vir à praia. – Clamava despeitada. – Ao que chegámos neste mundo? Uns tranbolhos daqueles com as partes ao léu no maior dos descaramentos. – Lá estão aquelas idiotas das manas Toninhas a turvarem-me a água Gaivota Carlota. Um dia ferro-lhes uma picada no corpo que vão ver. – Ruminava o Garajau Real que não gostava da presença de tais criaturas na sua zona de pesca. – Pica, pica que ainda ficas com o bico preso naquelas banhas. - Tem juizo rapaz que já tens idade para isso. – Advertia-o avisadamente Dona Gaivota Carlota. - Mas Dom Garajau Real que se tinha pavoneado pelas alturas pela manhã e apenas deparara com alguns Baiacus agonizantes na praia estava com uma fomeca dos diabos. Baiacu não era com ele. O camarada não era peixe que se cheirasse. Mau carácter com a mania de ambalonar em arco e ainda por cima venenoso como cobras. E foi quando estava ao lado da Carlota que premonitara uma tragédia esta realmente aconteceu. Dom Garajau que tinha tanto de galã de bairro como de estúpido quando viu umas das filhas da Sardinha Viva a saltar desesperada na areia canela nem sequer reparou que ela tinha sido fisgada por um dos kandengues da praia. E aí vai disto, alça voo direito ao céu e mergulhando que nem um Mirage atira-se glutão à filha da Miss Sardinha. Tarde de mais quando sentiu o aço frio do anzol a furar-lhe o palato e percebeu que o tinham fisgado também. – Fisguei um garajau, fisguei um garajau. – Gritava um moleque exultante com a proeza. Tal façanha havia de se tornar rotineira na Praia da Miragens para mau grado das filhas da Sardinha Viva e dos colegas de Dom Garajau. Dona Gaivota que era muito ciosa dos seus ovos e quando algum rapineiro tentava surripiá-los investia furiosa contra o intruso, levanta voo e vai direito ao kandengue que larga a linha e foge pala praia a sete pés. – Eu não te avisei Garajau Real para deixares as meninas da Sardinha Viva em paz. Agora olha o que te aconteceu tanto quiseste fisgar que foste tu o fisgado. Sem esforço desembaraçou o envergonhado garajau do anzol que voou para a ponta do Pau do Sul com carradas de vergonha. Quanto à sardinha vaidosa esperou que uma onda mais larga viesse e empurrou-a para a espuma alva. E lá foi ela meia trôpega das barbatanas queixar-se à mãe do seu infortúnio. Dona Gaivota Carlota voltou tranquilamente para o seu poleiro na ponte velha e recordou com nostalgia os tempos em que os “Gasolinas” traziam pessoas para morarem ali ao lado da Praia das Miragens.

 

Reis Vissapa


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publicado por zé kahango às 09:25
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