Intensa paixão, tristeza profunda, sagrada esperança...

Sábado, 31 de Maio de 2008
"NAS TERRAS DISTANTES DO “BOI SAGRADO”" – excerto II

 

“Os Hereros conhecem os vaus do Cunene que atravessam quando pretendem vender bois no nosso território.
(…) mas o Cunene é muito grande e, nesta época, vadeável um pouco por toda a parte.
(…)
Dos Hereros, altos, atléticos, especados agora um pouco mais atrás, observava o mais novo. Crânio rapado, exibia, a partir da parte posterior, dois compridos rabichos apartados de carapinha entrançada que lhe desciam abaixo dos ombros. Tanga de coiro bem surrado e um colar a muito fiadas de missanga de casca de ovo de avestruz, eram a sua vestimenta e toucado de jovem Herero solteiro.
(…)
Os bois seguiam a caminho do Chitado. Designados aqui também pelo nome de hereros eram animais de pernas desproporcionadamente altas, chifres enormes e estavam magros da longa caminhada pelo deserto.
Do Chitado ao Ruacaná são mais 45 quilómetros por maus caminhos.
Deixada a estrada, já com o estrondo das quedas nos ouvidos, fomo-nos aproximando, através do emaranhado arbustivo que tenazmente resiste ao embate da corrente na altura das grandes chuvas.
O piso vai-se tornando mais acidentado, entramos na zona de enormes massas rochosas, escorregadias, polidas.
Há que saltar de penedo em penedo, pois torrentes intersticiais ramificam-se através das fendas rochosas, alagando tudo.
Grandes árvores sobrevivem aqui e ali, e, por todo o lado, a vegetação, embebida nas águas, eleva-se pujante.
O calor que durante a viagem nos atormentara desapareceu.
Penetrando na frescura e solidão de escusos labirintos desembocamos numa plataforma de pedra lisa e, ao longe, vemos o rio chegar precipitando-se duma altura de mais de 70 metros.
Vem agora minguado de água mas o espectáculo é ainda grandioso.
Procurando novos pontos de vista a juzante tivemos a surpresa de observar, lá em baixo, tudo o que restava daquela vertiginosa queda fumegante e só vimos o que parecia uma sequência de grandes poças de água entaladas entre rochedos quase a pique.
Era o fim da estação seca.”
 
 
 
 
(V. H. M., in “O Turismo”, número de Setembro de 1969)
 


publicado por zé kahango às 18:44
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"NAS TERRAS DISTANTES DO “BOI SAGRADO”" - excerto I

 

“Às escuras enfiei para a barraca. Como última precaução passei pela cara e mãos repetidas aplicações de ‘insect repelent’. Depois, tirados os botins, deitei-me vestido.
            Não sei quem foi que disse: “Julgo que é por aqui que se criam todos os mosquitos que há em Angola”.
            De manhã, ao acordar, tinha as pernas até aos joelhos com as marcas de cem picadas de mosquitos.
            Percebi que o meu companheiro, fresco e bem disposto, sorria à socapa. Será que estes homens do mato adquirem imunidades?
            Vencidos os alcantis escalvados das ribas do rio deparou-se-nos a torrente impetuosa, bravia, escoando-se entre fraguedos.
            Os acessos conhecidos para os miradoiros naturais eram agora torrentes caudalosas, intransponíveis. Vegetação luxuriante fechava os horizontes.
            Outros acessos não os encontrámos.
            Quedos, escutávamos o fragor tremendo da cachoeira invisível.
            Para nós foi esse o espectáculo do Ruacaná nas grandes chuvas.
            No regresso, pelo caminho do Calueque, alcançámos a Donguena, onde permanecemos três dias e tanto bastou para que aquelas águas, espraiadas por mulolas e chanas tivessem baixado a ponto de permitirem o regresso directo ao Catequero.
 
*
 
Mas a visita ao Ruacaná havia de fazer-se. E assim, na época seca, em Agosto, quando os capins aloiram ao sol nos campos de pasto, deixámos Otchinjau e, pelo enfiamento dos ásperos caminhos que atravessam as terras de um povo, quase isolado, de pastores, os Chavícuas, atingimos o Chitado à beira do Cunene.
Uma pescaria levou-nos ao rio por terreno fortemente ondulado, pedregoso. Acompanha-nos um comerciante da região.
O rio, depois das convulsões do Ruacaná, corre manso e espraiado. Pela tardinha notou-se para as bandas do mato o restolhar de animais.
A fauna selvagem era outrora senhora destas terras semidesérticas. Dizimada sem quartel pelos profissionais furtivos do outro lado da fronteira, aventureiros de todas as raças, brancos, mestiços e, quase exterminada, já nos nossos dias, pela ausência de fiscalização das leis da caça, pela facilidade da caça livre, vamos ultimamente, assistindo a um lento repovoamento natural destas regiões e já hoje é possível, a quem percorrer de carro as estradas da fronteira, avistar pequenos grupos de Cudos, os chavelhos retorcidos sobre o dorso, na fuga para o emaranhado da mata protectora, ou surpreender a alta acrobacia dos voos das impalas.”
 
 
(V. H. M., in “O Turismo”, número de Setembro de 1969)
 


publicado por zé kahango às 16:42
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Sexta-feira, 31 de Março de 2006
"Jesus Cristo Superstar"

Um filme que vi e revi, várias vezes.

De que fiz várias "leituras"...

Primeiro, o impacto emotivo, também estético. Depois, a mística, em tonalidades hippies. Um filme musical, mas diferente, quase operático, quase tragédia grega, em que a dinâmica plástica potenciada pela criatividade lírica atinge grande intensidade filosófica e poética...

A leitura política do filme é a mais redutora.

Quanto à mensagem religiosa (ou filosófica, como se queira...): aparentemente desalinhado com a ortodoxia dos evangelhos oficiais, segue uma coerência de questionamento social, que o cristianismo mantém com toda a pertinência na actualidade...


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publicado por zé kahango às 00:05
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Quinta-feira, 30 de Março de 2006
A Bíblia e África...

A propósito das influências da educação religiosa, no meu caso: também me despertaram, paralelamente à vertente propriamente mística, para um imaginário antropológico orientalista, para a cultura da antiguidade clássica...

Para o Médio Oriente, para o Egipto, para o norte de África...


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publicado por zé kahango às 23:49
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Segunda-feira, 27 de Março de 2006
primeiras BD's
Nos jornais de São Paulo, Brasil, 1960: Mandrake, Flash Gordon, Fantasma...

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publicado por zé kahango às 18:37
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primórdios cinéfilos

Nestas coisas de destaparmos a personalidade, soe falar dos filmes da nossa vida:

1º filme - Cantinflas Toureiro (em sessões contínuas...)

2º filme - Tarzan da Floresta

3º filme - Joselito e o cavalinho branco

Géneros mais vistos na infância:

a) capa-e-espada (Errol Flinn)

b) romanos (Maciste, etc.)

c) piratas (anónimos...)

 

De 2001, Odisseia no Espaço e JCSuperstar falarei à parte...


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publicado por zé kahango às 18:06
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Terça-feira, 21 de Março de 2006
Nesse distante dia...

...de 1960, então menino de seis anos, com minha mãe embarcava no paquete que partia do Cais da Rocha do Conde de Óbidos, em camarote turístico, para uma travessia oceânica de onze dias.

Episódios inesquecíveis durante a viagem, como o das crianças das ilhas que mergulhavam para apanhar as moedas jogadas à água pelos turistas, o vôo dos peixes-voadores, o carnaval pela passagem do Equador...

"Ei! Você aí! Me dá um dinheiro aí! Me dá um dinheiro aí!"

Ia a caminho das terras do Novo Mundo, onde - sob o fantástico Cruzeiro do Sul - começaria a aprender a vida...

O vapor Vera Cruz aportaria em Santos, em 27/09/60.

Pouco tempo depois, o seu gémeo, Santa Maria, viria a ser alvo de uma famosa acção de desvio, chefiada por Henrique Galvão.


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publicado por zé kahango às 04:32
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Foi nele que parti para a aventura...


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publicado por zé kahango às 04:25
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Primavera

Nos ciclos da vida, é sempre momento de desabrochar de flores. Esta imaginária, nascida à beira do paredão direito do precipício do Bimbe.

...

Meus Amigos, reflicto sobre esta minha paixão (Angola).

Indagar-se-ão alguns, incrédulos, duvidando de tal arrebatamento: como pode alguém não nascido naquelas africanas terras tão apaixonado por elas se sentir?

É pergunta que não sei responder, que me faço a mim mesmo muitas vezes: ofício de fantasiar uma vida desencantada?

Rebuscando a memória, encontro alguns genes de procura africana na família - os tios paternos: um anarquista, exilado político em Cabo Verde; outro que projectava cafezais e independência em Angola; e uma tia professora em Moçambique.

De todas essas influências, meu pai também atravessou o Atlântico, para a terra que veio a ser a sua paixão - o Brasil.

Uma linhagem familiar de apaixonados...


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publicado por zé kahango às 01:56
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