Intensa paixão, tristeza profunda, sagrada esperança...
Sexta-feira, 9 de Outubro de 2009
Luandino no Alentejo

Afastado há 16 anos da vida pública, resguardado no Alto Minho a "meditar sobre literatura", o escritor angolano Luandino Vieira esteve em Serpa no último sábado, 3, a pretexto da sua mais recente obra, O Livro dos Guerrilheiros, a segunda de um conjunto a que deu o título De Rios Velhos e Guerrilheiros.

Não se trata, pois, do regresso do autor de Luuanda à actividade literária depois de décadas de silêncio - O Livro dos Rios foi publicado em 2006, poucos meses depois da atribuição do Prémio Camões, que Luandino recusou por "razões pessoais, íntimas" - mas sim, desta vez, de um retorno ao País real, para olhar nos olhos os seus leitores e para agradecer-lhes.

Foi isso que fez em Serpa, no Espaço Vemos Ouvimos & Lemos (VOL), onde o esperavam, ao fim da tarde, o trio Modas à Campaniça e uma exposição de cerâmica de Heitor Figueiredo, além de um auditório expectante que quis sobretudo ouvi-lo sobre Angola, o seu envolvimento no movimento de libertação nacional e o seu contributo para o nascimento da República Popular de Angola.
"Estou aqui, em Serpa, porque era meu dever de gratidão, não só para com Serpa, mas para com os alentejanos, que conheço de fama, lenda, narrativas e glória de Angola", disse. Uma cultura tão marcada no seio da grande cultura portuguesa que havia quem garantisse, entre os guerrilheiros angolanos, a existência de "estrangeiros" no Exército Português, contou em jeito de anedota. Quis, por isso, homenagear o Alentejo, evocando Manuel da Fonseca, de quem guarda na memória versos soltos ("Ai Maria Campaniça/levanta os olhos do chão/que eu quero ver nascer o sol!") e um gesto de coragem que se sobrepõe à qualidade de "grande escritor" que lhe reconhece. Manuel da Fonseca foi um dos cinco elementos do júri da Sociedade Portuguesa de Escritores (SPE) que, em 1964, teve o "atrevimento" de atribuir a Luuanda o Grande Prémio de Novelística, causando um verdadeiro terramoto nas vidas culturais portuguesa e angolana. A SPE foi encerrada, o seu júri preso e interrogado e, um pouco por todo o território angolano, as associações de natureza cultural deixaram de poder ter actividade. "Era o pretexto que o Estado Novo precisava para acabar com a parte visível da luta de libertação, ou seja, a luta cultural que se fazia em Luanda, em Lubango e em Benguela. E este é o modo que eu tenho de honrar a vossa presença aqui e a minha estadia no Alentejo, falando desse grande escritor", recordou. 


Sobre O Livro dos Guerrilheiros falou Zeferino Coelho, editor da Caminho e conhecedor da obra de Luandino desde os seus primórdios, nos anos 60, altura em que se percebeu, desde logo, que nascia uma "nova voz" na literatura de língua portuguesa, e de tal forma original, em forma e conteúdo, que, sem exagero, se pode aí situar o "nascimento da literatura angolana moderna". Não só pela "transformação da língua portuguesa" que operou ao transpô-la para África, entrelaçando-a com o quimbundo, a sua segunda língua, como pela riqueza das imagens, inéditas, sobre uma sociedade angolana que não estava representada na literatura dita colonial, "feita por brancos e falando dos brancos em África", reforçou o editor.

ImageO Livro dos Guerrilheiros, que continua a narrativa anterior sobre a guerra de independência de Angola, ou Colonial, como se diz do lado português, não escapa a esse registo. "Conhecemos a história do movimento de libertação, os seus dirigentes, os seus heróis, mas ignoramos o chamado povo miúdo, e este é um livro sobre o povo miúdo ou ‘arraia-miúda', como disse Fernão Lopes", explicou o editor, que encontra laivos do lendário cronista português e de outros grandes nomes da literatura portuguesa - Camões, Fernão Mendes Pinto - nestas páginas onde guerrilheiros comuns aparecem retratados, não como elementos apagados de uma massa uniforme, mas nos seus traços muito próprios, motivações e formas de estar, de interpretar, de participar, de contribuir, conferindo riqueza e humanidade a este movimento social e político. E isto, concluiu Zeferino Coelho, fazendo uso de uma "extraordinária forma de contar", que vai alternando registos - a linguagem cinematográfica também lá está - cruzando línguas - a portuguesa e o quimbundo - e revisitando uma tradição literária em que Luandino "se inscreve e renova".

 

José Vieira Mateus da Graça nasce em Portugal em 1935 mas logo aos três anos parte para Angola. Aí cresce, estuda, trabalha em diversas profissões, cria a sua teia de relações, e escreve as suas primeiras obras, sobretudo nas prisões por onde passa (é preso, pela primeira vez, em 1959, e novamente em 1961, desta feita condenado a 14 anos de prisão e medidas de segurança), por conta da sua participação activa no Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA). Faz-se então Luandino Vieira e angolano - "branco mas provavelmente tão preto como qualquer dos pretos de Angola", como ilustrou, em Serpa, o editor, Zeferino Coelho.
Fiel à máxima de Aristóteles "O Homem é um animal político", Luandino Vieira consegue identificar, desde muito cedo, a sua estranheza perante situações em que a raça e a origem sócio-económica se conjugavam para determinar injustiças. Num musseque (bairro periférico pobre de Luanda), filho de pai sapateiro e vizinho de negros, mestiços e brancos, Luandino sabia que não era mais do que um euro-africano, o mesmo que dizer "branco de segunda", condição que haveria de constar, obrigatoriamente, no boletim de matrícula para aceder ao liceu. Mas isto não era tudo. "No terceiro ano já fazíamos um pequeno jornal manuscrito onde obviamente não havia ainda a ideia de independência mas onde nos questionávamos em relação à educação, por exemplo. Na escola, a professora de português obrigava-nos a fazer uma composição sobre a oliveira, e nós no jornal escrevíamos sobre o embondeiro. Não sabíamos rigorosamente nada do que era Angola e sabíamos tudo do que era Portugal", contou.
A luta pela libertação nacional, que primeiro tomou a forma de combate cultural, em cine-clubes, sociedades, tertúlias de poetas e até em igrejas, fez-se luta política declarada quando se opta, em 1961, pela luta armada, após várias tentativas frustradas de diálogo com Salazar através de organismos internacionais. O que se seguiu foi "uma tragédia que atingiu os dois povos e que estragou o que cinco séculos de falta de política tinham feito: a construção de uma nação que estava madura para, através de negociações, incorporar o que hoje se tenta fazer com decretos, CPLP, lusofonia...".


Hoje é no futuro que Luandino pensa, porque a "época de fazer como se poderia ter feito já passou". Mas não parece optimista. Angola está em paz, após quase trinta anos de guerra civil, o que aí está em curso pertence aos próprios angolanos e, no entanto, "se lhes perguntarem se percebem para onde se vai, estou convencido de que ninguém sabe para que lado é que está a seguir aquela nação". Isto porque, concluiu, lacónico, Angola "está inserida quase totalmente no grande movimento da globalização capitalista. Isso é visível, está em marcha, não se pode travar, com tudo o que isso significa".

 

in Diário do Alentejo


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publicado por zé kahango às 17:05
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