Intensa paixão, tristeza profunda, sagrada esperança...
Terça-feira, 14 de Julho de 2009
opinião

O agronegócio e o futuro da agricultura angolana      

ImagemNos últimos tempos, por razões profissionais, tenho tido contacto mais frequente com o mundo do agronegócio angolano que está a despontar. Em muitas regiões são visíveis os resultados de iniciativas de empresários e do Governo nesse domínio.

Extensas áreas cultivadas com recurso à mecanização são um regalo para a vista para o cidadão comum e dão-lhe uma certa perspectiva do que pode vir a ser a agricultura angolana do futuro. Depois de largos anos de letargia, estão a ser introduzidas novas técnicas e formas de organização que poderão contribuir para o aumento da produção e da produtividade.

Alguns factores têm contribuído para esse despertar. Grande parte dos novos capitalistas angolanos descobriu, finalmente, a agricultura. Alguns por entenderem a sua importância como actividade económica, outros porque ilusoriamente acreditaram que seria uma forma rápida de desenvolverem, sem grandes custos, os seus negócios. Muitos dos empresários agrícolas emergentes são governantes, deputados, dirigentes políticos ou altos funcionários do Estado, o que melhora a sensibilidade dos decisores públicos em relação aos problemas agrícolas.

As recentes decisões do Governo no sentido da diversificação da economia constituem um poderoso factor de aliciamento. A criação de fundos governamentais para suportar o crédito para os agricultores constitui a cereja em cima do bolo. A correria às terras supostamente abandonadas aumentou de forma inusitada e as propostas para a criação de fazendas caiem em catadupa em cima das mesas dos governantes provinciais.

Num país em que a agricultura foi dolorosamente abandonada praticamente desde a sua independência – o que contribuiu, em minha opinião, para alimentar a guerra, a pobreza e o êxodo rural – esta nova dinâmica deve, forçosamente, ser saudada. Porém, não posso, uma vez mais, deixar de chamar a atenção dos decisores públicos e de quantos têm tido a paciência de ler estas minhas reflexões, para a necessidade de se ponderar sobre esta nova realidade.

Primeiro que tudo, o agronegócio deve ser encarado como um negócio, e, como tal, respeitadas as regras empresariais da eficácia e da eficiência. A ideia de se reconstruir o modelo de fazendas que existia no tempo colonial, como tantos pretendem, não faz qualquer sentido. Angola quer modernizar-se, mas para isso tem de reflectir sobre o que significa hoje ser moderno.

A ocupação ociosa de extensas superfícies de terras, sem qualquer utilização, tal como faziam os fazendeiros portugueses, privando os camponeses de terras para seu uso, é economicamente irracional, socialmente injusto, ecologicamente perigoso e politicamente imprudente. O Governo tem de cumprir a Lei de Terras de modo vigoroso, não cedendo a pressões de gente que, aproveitando-se da sua situação privilegiada, pretende a todo o custo, com a ocupação de extensas superfícies improdutivas, fazer vingar os seus interesses particulares em detrimento dos interesses colectivos e dos do próprio país.

Tem de cumprir também a legislação ambiental, pois alguns dos projectos megalómanos que estão em curso ou em carteira são prenunciadores de desastres ecológicos. Tem de exigir o cumprimento de outra legislação, como o pagamento de impostos e, sobretudo, exigir o cumprimento de regras de responsabilidade social.

Os angolanos em geral, e particularmente as elites, têm um fascínio pela modernização acelerada do país que se me afigura preocupante. É evidente que todos queremos recuperar o tempo perdido com a longa noite colonial e com a guerra. Mas a reconstrução não pode ser entendida como a recreação de um modelo de desenvolvimento injusto e que está ultrapassado no tempo.

Temos então de reflectir, insisto, sobre o que significa ser moderno nos dias de hoje no que se refere à agricultura. Tal como está ultrapassado o conceito de construção de cidades com prédios altos, também em agricultura surgem novos conceitos relativamente aos modelos e sistemas de produção. A agricultura já não deve ser considerada a arte de empobrecer alegremente como aprendi nos tempos da universidade, pois há técnicas e tecnologias que permitem, em superfícies pouco extensas para poupança de recursos, atingir produtividades elevadas.

Para tal, é necessário um sério esforço no campo da pesquisa científica. O Governo angolano, dentro da pobreza da agricultura, tem tratado a investigação como parente ainda mais pobre. Não consigo perceber como se descura o conhecimento sobre a nossa história. O badalado sucesso da agricultura colonial só foi uma realidade a partir do momento em que o investimento na investigação começou a produzir os primeiros resultados. Em vez de aproveitarmos esta boa prática, como aconselham as regras da gestão moderna, enveredamos para o que já tinha sido posto de lado pelos portugueses. Um exemplo é a forma como se (não) trata da agricultura familiar, e outro como (não) é encarado o problema da mecanização, mas estes assuntos merecerão outras conversas.

O agronegócio angolano pode ter sucesso, mas tem de ser pensado de modo bem diferente do que tem sido feito até agora. Se não for assim, pode vir a ser mais um elefante branco.

    

Fernando Pacheco, Coordenador do OPSA Angola

in Correio do Patriota



publicado por zé kahango às 17:55
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