Intensa paixão, tristeza profunda, sagrada esperança...
Domingo, 23 de Março de 2014
Centro Equestre da Huíla




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Quinta-feira, 20 de Março de 2014
ulinga ô-manima ê-chinana!...
O blogue faz hoje oito anos!



Por meus filhos já regresso
a esta sanzala de novo;
por meu chão, por meu povo,
de Angola nunca me despeço.

Por meu filho, meu coração,
minhas lágrimas de alegria,
pelas picadas percorreria,
por mim, pela minha paixão!

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Terça-feira, 18 de Março de 2014
Contos do Vissapa - 7

A "loja do mato" está e estará no meu imaginário para sempre. Nunca houve nada tão singelo e simples como elas e vendo bem as coisas contribuíram para o maior intercâmbio de culturas da história de Angola.

 

BELUNGA - O ESPIÃO DO CALOR

 

Há duas coisas que nunca existiram neste mundo de Deus e nem mesmo a imaginação mais fulgurante e profícua poderia alguma vez conceber a sua existência. Mas acreditem ou não existiram e eu sou testemunha. Uma era o Tchicututilo e outra era o Belunga, e ambas completavam-se como o “Suiuio” em pena de galinha. O Tchicututilo era uma povoação de duas casas e um casebre encravada em nenhures, muito para lá do sol-posto. Para se chegar lá eram precisas carradas de paciência, fé em Deus e uma carrinha GMC do princípio dos anos cinquenta ou uma Ford do final dos quarenta, pelo menos eram as duas viaturas que eu conheci lá para aquelas bandas, com a honrosa excepção do meu Willys com motor Hurricane. O chão do Tchicututilo era de um rubro alaranjado e os mutiátis salientavam-se verdejantes crescendo desordenados por todo o lado. Os morros de Salalé pareciam dedos terrosos apontados ao céu e muitos outros acostavam-se às espinheiras servindo-se delas como escoras. A loja do João Rebelo (Camundongo) ficava à entrada do lugarejo, e a do Manel Serra (O Chiça) à saída, algo que não estava perfeitamente definido pelos dois comerciantes e suscitava um constante desaguisado. Na verdade quando o Rio Mutupuka engravidava das águas serranas a posição invertia-se. O Camundongo passava para a saída e o Chiça para a entrada. Deixem-me explicar. Era preciso dar a volta por trás da serra para se chegar ao Tchicututilo. Depois de alguns amuos mais ou menos prolongados entre os dois, concordaram mutuamente em colocar duas tabuletas amarradas com arame a dois bocados de carril de caminho de ferro, um em cada entrada ou saída, conforme havia chuva ou não. Eu o Willys e o Belunga, o meu ajudante de campo, vivíamos no meio destas duas almas perdidas num casebre do comerciante pioneiro do Tchicututilo o velho Cabaça que morrera no final dos anos trinta e só fora encontrado no inicio dos quarenta. Muita chuva para aqueles lados na época. Eu dividia o único aposento coberto da ruína com duas osgas que pareciam jacarés de tanto insecto comido e uma cobra rateira que ziguezagueava o tecto de capim durante a noite. Nada de mais. O Belunga, ave pouco dada a capoeira dormia no alpendre das traseiras junto ao teodolito e ao saco da tenda que só usávamos quando tínhamos de dormir longe do Tchicututilo por exigência do meu trabalho de topógrafo. A loja do Rebelo era em tudo igual à do Serra, com a subtil diferença de uma se localizar à esquerda e outra à direita da picada que cruzava o lugar, isto é, se não chovesse. Ambas tinham sido concebidas arquitectonicamente com arrojo, aquilo que hoje se chama de arquitectura minimalista. As típicas lojas do mato. Um rectângulo com duas janelas e uma porta ao meio destinado a habitação. Outro rectângulo de maior dimensão colado ao primeiro, mas apenas com uma janela e uma porta destinado ao comércio. Nunca cheguei a saber se houve plágio do projecto mas eram iguais como duas gotas de água. Ambas com cacimba, sambo para o gado, mamoeiros, uma mangueira e uma data de penosas e patos mudos esgaravatando aqui e ali em busca de bicharada na areia vermelha. Por vezes a criação atrevia-se a incursões aos sacos de serapilheira atulhados de Massambala, massango e milho, especados como sentinelas á porta dos estabelecimentos. As mesmas rodas de bicicleta penduradas no tecto, dezenas de garrafas de vinho Royal alinhadas na prateleira como soldados, samacacas, kamberiquitos, caixas de remendos, rolos de cangonha, rodas pedaleiras, maços de papel de embrulho entulhados de Francesinhos, Caricocos, Morenitas e Francês Galo. O Camundongo e o Chiça abriam e fechavam as lojas à mesma hora num ritual único. Cada um deles colocava uma gaiola com uma bengalinha e um bigodinho no prego espetado na parede de adobe. Um tinha uma Ford o outro uma GMC e bem contadinhas as cabeças de gado nos sambos não deveriam variar muito em quantidade. A clientela era fundamentalmente a mesma, trazendo bois e cabritos e levando cobertores, samacacas e bicicletas e açúcar mascavo para a fabricação de água-ardente de Mangongo. Eu abastecia-me alternadamente num e noutro para não arranjar atritos e o churrasco picante ou era na casa do Rebelo aos sábados ou na do Chiça aos domingos. O Belunga, o meu porta-miras travara-se de amizades com os dois comerciantes e passava horas a tagarelar em bundo com um ou com o outro, conforme o dia e a loja e eu sem perceber patavina. Deixou de me pedir adiantamentos e ao fim de seis meses já tinha uma bicicleta zero quilómetros, dois kamberiquitos novos, três cabritos e uma nema, sem contar com as garrafas de Macieira vazias espalhadas no alpendre. Estranhei a fartura repentina e resolvi perguntar-lhe o que se passava. - O negócio é o seguinte o Camundongo me solicitou para ver os preço das mercadoria da loja do Chiça para fazer os comparação e me dá umas propina – Ai é? Exclamei espantado. – E então o Chiça não desconfiou? - Não desconfiou não, ele me pediu para fazer o mesmo na loja do Camundongo. Assim todo o mundo está contente e não precisa discutir mais qual os entrada ou os saída do Tchicututilo.

 

 

Reis Vissapa


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Quinta-feira, 13 de Março de 2014
querem lá ir?

 

 


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Contos do Vissapa - 6

NKWASI - A LENDA

 

Ngeve palmilhou os últimos cinquenta metros que a separavam da cubata abandonada no meio da anhara onde o mato rasteiro tomara como residência o terreiro que outrora se situara no meio da sanzala. A bola vermelha germinava no horizonte crepuscular recortando as árvores mais altivas em tons sombrios com a natureza orquestrando os primeiros acordes matinais. Arrastou-se até ao centro do terreiro com ambas mãos sustentando o ventre dilatado de vida. Virou-se para o sol como buscando ajuda e o semblante alterou-se num esgar de dor. Curvada trouxe ao mundo Ekumbi menino sol que transportara há nove meses consigo. Cortou o cordão umbilical com a boca e limpou a criança com ternura. Ngeve fora expulsa da sanzala e estigmatizada como adúltera por Ngongo e a sua mulher Njamba três meses antes do parto literalmente selvagem. Gémeas de nascimento ambas haviam sido prometidas aos doze anos na festa da puberdade respectivamente a mais nova Njamba, ao soba Ngongo e Ngeve a um pastor negro garboso e de porte altivo de nome Vitulo. A sanzala situada entre o Cafu e o Humbe tocava a vida harmoniosamente entre o pastoreio do gado, os arimbos de milho e a pesca artesanal no Cunene. Ngongo que queria as duas irmãs só para ele tratou de afastar o pastor de Ngeve e obrigou Vitulo a ir em busca de umas cabeças de gado supostamente roubadas obrigando o rapaz a uma ausência de seis meses sem este sequer concretizar qualquer relacionamento com a sua prometida. Quando do tardio regresso à sanzala o jovem Vitulo encontrou a mulher grávida. Alegando adultério os pais das gémeas tiveram de lhe devolver o dote respeitante a Ngeve que era constituído por várias cabeças de gado. O soba Ngongo temeroso de Njamba fechou-se em copas e determinou a expulsão da rapariga. Ekumbi cresce com a sua jovem mãe na sanzala abandonada e torna-se um jovem atlético, profundo conhecedor dos segredos dos matos. No final dos anos trinta tem vinte anos e é um hábil pescador e caçador garantindo com o plantio do arimbo por Ngeve o sustento de ambos. Tem um recanto onde pesca no Cunene e a altiva águia pesqueira africana que o observa acaba por se habituar à sua presença soltando o seu gristo estridente sempre que o jovem chega à margem do rio. Volta e meia levanta vôo e rasa as águas agarrando com as garras um descuidado peixe prateado. Tornam-se dois companheiros de pesca que se toleram numa paz absoluta e o jovem Ekumbi acaba por imitar na perfeição o grito da ave. Certo dia ao chegar ao rio estranhou não ouvir as boas vindas da águia e não a lobrigou no seu poleiro habitual na acácia espinhosa. Encontrou-a agonizante sob a espinheira totalmente coberta de quissondes. Sacudiu os insectos e enterrou a sua companheira destroçado pelo desgosto. Quando acabou a tarefa vislumbrou um ninho entre as folhas da árvore e ouviu os gemidos esganiçados e famintos do filhote desprotegido. Subiu com dificuldade à espinheira e retirou avezinha quase sem penas do ninho e alimentou-a. Um ano volvido o animal tinha-se transformado num soberba águia que o acompanhava para onde quer que ele fosse soltando os seus gritos de liberdade e regressando com ele ao diminuto kimbo pernoitando numa das acácias adjacentes. De maior idade a mãe Ngeve conta-lhe a história do seu nascimento e faz-lhe saber que o soba Ngongo é seu pai. Ekumbi decide conhecer o homem que é seu progenitor e resolve ir à sanzala onde ele é soba acompanhado de Nkwasi o nome com baptizara a águia sua fiel companheira. Encontra a sanzala aterrorizada com a ameaça de um leão solitário que na noite anterior assaltara a sanzala de Ngongo e Njamba com o fito de roubar alguma cabeça de gado. Imprudentemente o soba e a mulher enfrentaram o animal e acabaram por sucumbir ao ataque deste. Os habitantes quando vêm Ekumbi acompanhado de Nkwasi a soberba águia pesqueira, de imediato identificam as parecenças Ekumbi com falecido soba e pensam que este reencarnou por ordem de Nzambi em homem e águia para os libertar do terror do leão predador. Ekumbi aceita de bom grado esta veneração e hábil caçador que é acaba por conseguir surpreender a fera e acabar com ela uns dias mais tarde É eleito soba e herda os bens de Ngongo. Nkwasi passa a fazer parte integrante do kimbo e pela alvorada solta o seu grito estridente de liberdade. Para os habitantes representa o deus Nzambi e ninguém ousa sequer aproximar-se dela. Esta lenda africana passa de geração em geração até aos nossos dias e quando hoje uma Nkwasi solta o seu grito estridente pelos céus este é interpretado em várias regiões da nova África negra como um grito da liberdade.


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Domingo, 9 de Março de 2014
um espanto!

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Quarta-feira, 5 de Março de 2014
Contos do Vissapa - 5

O MUCUBAL E O MALHADO

A residência de Kapingala estendia-se desde o Capolopopo à Pediva e em tempos de maior aridez podia chegar até ao Iona onde quase sempre havia pasto abundante. Kapingala um mucubal bem constituído com cerca de um metro e oitenta de altura e sem pinta de qualquer gordura extra percorria o seu território ancestral solitariamente, quase desde que dera os primeiros passos no deserto do Namibe. Um turbante de cor indefinida cobria-lhe a carapinha encrespada e na lateral do mesmo estava incrustado uma espécie de pente alongado de um dente só que servia para entrelaçar os cabelos. Junto aos caninos salientes tinha pespegada uma diminuta folha de oliveira em latão que lhe permitia falar com o seu rebanho. Uns nonkacos de pneu calçavam-lhe os pés curtidos e uma vara longa completava indumentária juntamente com um javite encaixado na piaça de couro que segurava o malapi. Ao pôr-do-sol dir-se-ia um Deus recortado na imensidão do deserto. O rebanho que pastoreava deveria ter para aí uns trinta animais que o boi de pelo castanho avermelhado com manchas brancas comandava com autoridade mugindo de vez em onde o seu vozeirão, balançando os cornos enormes com quase um metro de distância entre as hastes. O Malhado era o seu ai Jesus e homem e animal pareciam poder comunicar. Volta e meia ia até às imediações da Oncócua onde trocava duas ou três cabeças por um sobretudo militar novo, tabaco e um dois kamberiquitos para se proteger das madrugadas frias.
O seu tio Namgombe era uma espécie de Onassis do deserto. Quando lhe perguntavam quantas cabeças de gado possuía limitava-se a agarrar num punhado de areia e respondia que tantas como as diminutas pedrinhas que tinha na mão. Kapingala era filho da sua irmã Kasinda e culturalmente seria seu herdeiro por comprovada consanguinidade. Ambos não nutriam grande simpatia um por outro e Namgombe troçava da pobreza de Kapingala em matéria de gado. Por outro lado cobiçava o Malhado que via como um touro excelente para as suas imensas manadas chegando a oferecer-lhe cinco garrotes e três nemas por o bicho, proposta que Kapingala desdenhou. Certa ocasião Kapingala apaixonou-se perdidamente por uma bicicleta a pedal que o velho Aranha tinha para venda na sua loja do mato na Oncócua, pendurada do tecto. O velho Aranha tal como Namgombe cobiçava o Malhado que se dizia falava com o dono e por o mesmo possuir a fidelidade de um cão em relação ao proprietário. Nestas negociatas do mato tanto Namgombe como o Aranha esqueceram que amizade e fidelidade não se compram num sambo qualquer, mas são de facto fruto de um companheirismo e partilha de espaço e vicissitudes diversas durante longos anos.
Depois de muito regatear com o Aranha, Kapingala tremendamente entristecido acedeu a negociar o seu boi de estimação indo este parar ao sambo do astuto comerciante. O Mucubal cedo se apercebeu que bicicleta não era própriamente veículo para o deserto depois de sucessivos furos e pneus rasgados que o obrigaram a largar uma nema na loja do Aranha a troco de dois pneus, uma caixa de remendos e uma corrente para a roda pedaleira. Ao fim dois meses e verificado o trágico negócio que fizera atirou com a bicicleta por um barranco abaixo. Quando Namgombe soube do negócio de Kapingala arquitectou um plano diabólico para conseguir o Malhado e deixar o sobrinho em maus lençóis. Pela madrugada quando o deserto dorme passou pelo sambo do Aranha e com silvos tirados com a folhinha de oliveira logrou levar o Malhado atrás de si até o prender num dos seus cercados.
Quando Aranha deu por falta do bicho procurou Kapingala e acusou-o de roubo ameaçando fazer queixa na administração do Capolopopo. Este fez-lhe ver que o animal não estava com ele e convenceu o comerciante a irem fazer uma busca nos sambos de Namgombe onde descobriram o boi. Confrontado Namgombe com o furto do animal este negou e para provar a sua inocência abriu a porta do cercado e fez silvar a folhinha de oliveira em latão. O Malhado viu cá fora Kapingala e sai de lá desembestado e Namgombe põe-se à sua frente o que decretou a sua morte prematura com a marrada que levou. Nesse trágico momento Kapingala apercebeu-se que acabara por ficar o homem mais rico daquelas terras do Kuroca. O Aranha que conhecia a tradição mucubal propôs. – Kapingala podes ficar com o Malhado mas tens de me dar em troca cinca nemas e dois garrotes agora que herdaste essa fortuna toda. – Não Aranha, eu dou-te dez nemas e dez garrotes mas vais ter de mandar arranjar a bicicleta e quero dois pneus sobressalentes e cinco caixas de remendos e uma bomba para encher as câmara de ar. – E onde está bicicleta Kapingala? – Perguntou o comerciante acedendo à proposta. – Está lá ao pé da Pediva. – Respondeu-lhe o Mucubal. – Então leva lá à loja para eu mandar arranjar. – Ordenou o Aranha. – Não levo não Aranha. Vai lá procurar ela que eu também vim procurar o teu boi. Dizem que o velho Aranha procurou a bicicleta de Kapingala meses a fio sem sucesso e quando finalmente a encontrou só restava o quadro e o selim. Histórias de mucubais só acredita quem quer ou quem já foi enganado pelo Aranha.

Reis Vissapa


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Quarta-feira, 26 de Fevereiro de 2014
Capangombe

foto do Funka

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Contos do Vissapa - 4

ABELINO E O LEÃO DA RODÉSIA

 

Tenho dois netos beirões que são a minha maior alegria, para grande tristeza minha eu que sou um africano de quinta geração preferia que eles tivessem nascido num lugar qualquer em Angola, que podia ser a Chibia, Humpata ou mesmo Camucuio. De preferência longe do talhão. Mas a vida não é aquilo que a gente quer, lá dizia o avô Messias um colega meu dos tempos em que era bancário lá na minha terra. Entre muitas das razões que aponto para este meu desgosto há algumas que são relevantes. Primeiro nasceram praticamente calçados, privados do contacto com a poeira dos carreiros e aquele prazer imenso de sentir uma bitacáia a reproduzir-se no dedo grande do pé, ou tirar em corrida um espinho da sola dos pés. Segundo, não presenciarem um bando de milhares de singelas Zanguinhas volteando em nuvens no espaço ou contemplarem uma iridescente Vianganga no alto duma espinheira. Terceiro não brincarem com carrinhos de arame, ou fazerem carros de tabaibeira.

Entre ambos devem ter uma tonelada de quinquilharia de plástico a que os pais chamam brinquedos. Finalmente e para não me alongar em razões, terem um dia de ir para a embaixada de Angola mendigar um visto para a terra deles, esperando em filas imensas a oportunidade de ter um emprego do outro lado do mar, à imagem e semelhança das filas no IARN abrilista. Em consequência disto, chegarem lá e ouvirem os nossos patrícios dizerem. – Olha Capunda, estão a chegar os “Retornados”, será que trazem os Idi-Amin nos caixotes. Uns bichinhos esquisitos que fomos acusados de ter importado para o talhão na altura da descolonização. Ou então. – Esse Retornados toma muito banho, e gasta muito gás, mano. – Ou ainda como ouvi há meia dúzia de dias à porta de um supermercado – Oh Irene estamos tramadas com esta crise, o diabo dos Retornados deram cabo disto. Perco-me no trivial quando o essencial era falar do Abelino.

Pois bem o Avelino, quando chegou a Angola para a colonizar em meados dos anos cinquenta, trocava os Vês pelos Bês. Os pais já tinham tentado colonizar a França mas como esta estava cheia de colonos franceses optaram por Angola, terra onde se abanava uma goiabeira e caíam moedas de ouro – Chamo-me Abelino apresentou-se ele e tal como o meu neto diz com esse trocadilho – Abô, oh abô, olha o bião.

Calouro no liceu Diogo Cão, o Abelino passou pelas tradicionais partidas da época, tais como ir apanhar abacaxis com uma escada ou uma caçada aos Gambozinos, no entanto na sua educação alguém se esqueceu de lhe explicar o que era um Leão da Rodésia. Pois bem um Leão da Rodésia era um penico enorme com cerca sessenta centímetros de altura e uma bocarra de trinta de largura especialmente desenhada para bochechas anais. Muito usado nas fazendas e casas de comerciantes do mato, não vou perder tempo a explicar para que servia aquela maravilha da tecnologia sanitária e porque razão foi assim denominado.

Um ano depois o Abelino já falava português correctamente e para ele um Leão da Rodésia era um canzarrão enorme que o Ian Smith inventara para comer os negros.

Foi em Agosto férias grandes depois de termos pedinchado garrafões de vinho, uns patacos e sabe Deus que mais aos comerciantes do Lubango, fizemos numa camioneta da Missão de Estudos uma excursão pelo o sul de Angola. Um esplendor segundo o Avelino até ao dia em que partimos um semi-eixo e chegámos por volta da uma da manhã à loja do mato e habitação do velho Borrega. À boa maneira africana o comerciante recebeu-nos principescamente, e pelas duas da matina enchíamos a mula com as penosas de churrasco e mamámos-lhes três garrafões de Sanguinhal.

Gentilmente cedeu-nos o armazém do milho na parte de trás da fazenda para passarmos a noite. Bem avinhados aceitámos de bom grado a oferta e lá fomos para aquele hotel de cinco estrelas, cheio de sacas de milho, charruas, cangas de bois e uma boa dose de colchões de palha de maçaroca, e ao fundo encostado à parede um armário de duas portas onde estava repimpado no interior um Leão da Rodésia. O alarme soou menos de um quarto de hora depois, o Abelino ou por ter abusado do Sanguinhal ou do doce de guibas (Goiabas) da Dona Felizarda Borrega, começou a contorcer-se e a lançar na escuridão ruídos estranhos de mau presságio. Eram quase cinco da madrugada e ninguém pregara olho. – Um por um suplicámos-lhe para ir ao mato. Tá quieto ou bom, depois dos gambozinos e dos abacaxis e outras maroteiras do género o Avelino não pôs o pé na rua por nada deste mundo. Para piorar a situação o Toupeira habituado a dormir até em pé, vinte das vinte e quatro horas do dia, gritou-lhe. - Olha o Leão da Rodésia, Avelino. Um silêncio de morte estendeu-se pelo armazém e finalmente e como por encanto ele serenou, não arredando pé do colchão de palha de maçaroca até o sol mandar um ar da sua graça.

Quando nos levantámos pergunta o Toupeira ao Abelino – Puxa pá, porquê que não usaste logo o Leão da Rodésia se tinhas tanto medo de ir à rua? – Qual Leão da Rodésia? – Tenho um medo desses cães que até estremeço e olha… Olhámos uns para os outros espantados e eu pensei cá para comigo que cara não ia fazer a Dona Felizarda quando fosse ao armazém durante o dia e deparasse com o estado do colchão.

 

Reis Vissapa


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preparativos...

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Contos do Vissapa - 3

 

 

O GARAJAU, A GAIVOTA E A SARDINHA

 

Estes acontecimentos baseados em factos verídicos desenrolaram-se no longínquo Namibe exactamente entre o Farol da Ponta do Pau do Sul, a magnífica Praia das Miragens e a Ponte Velha. Dom Garajau Real morava no Farol da Ponta do Pau do Sul mas ai de quem lhe desse esse nome que ele ia aos arames. – Ponta do Pau do Sul não, Ponta do Noronha que eu sou de linhagem real e não moro num casebre qualquer. – Grasnava irritado. A minha família sempre escolheu estas pontas como seus reinos. Vejam o meu primo Garrinco que mora na Ponta Albina, aliás está lá um faroleiro grande religioso que de vez em quando lhe dá umas sobras. O Simão Toco homem de grande religião. Infernizava a vida de toda a gente com esta prosápia vaidosa sobre a linhagem real. Ali não muito longe e meia saltarica vivia Miss Sardinha Viva, viva de mais que era mãe solteira e já tinha uma prole dos diabos. A Sardinha Viva passava o tempo a advertir as filhas do perigo em nadarem na maré transparente pois transformavam-se em presa fácil para os kandengues que tinham a mania de as pescar. – O século Carapau dizia-lhe em voz sábia: - Cuidado com essas suas meninas que têm a mania de se armarem em vaidosas a exibirem os bikinis prateados ali junto à areia Mana Sardinha. – Eu já as avisei Senhor Carapau. E não só há o perigo dos kandengues como aquele idiota do Garajau Real volta e meia faz uns voos picadados com intenção de papar uma das minhas donzelas. Que sem-vergonhice que vai por este mundo Deus. Até a mim que já não sou uma catraia quis papar o sem vergonha. Dona Gaivota Carlota ouvia estes diálogos na velha ponte carcomida pelas águas e com o esqueleto enferrujado à mostra e pensava para com ela que mais dia menos dia iriam assistir a uma tragédia na Praia das Miragens. Não desgostava do Garajau Real com aquela pôpa preta meia pedante que exibia vaidoso. De certa forma até tinha um fraquito pelo o aristocrata da Ponta do Noronha e ela não era de todo indiferente ao marau. Costumavam ficar juntinhos empoleirados num dos ferros da ponte a arrulhar um amor platónico. Mas ele com a mania de se exibir levantava voo e numa velocidade estonteante descia a pique com asas elegantes junto às penas e mergulhava no azul anil feito Tarzan – Este parvalhão qualquer dia dá-se mal com a brincadeira. Deixa-me aqui a falar sozinha eu que tanto queria que picasse sobre mim. Estas atitudes de vaidade e exibicionismo deviam-se em grande parte aos humanos que chafurdavam que nem loucos na água para atraírem a atenção das não menos vaidosas garinas da praia. Tudo isto era salutar e condizente com as zonas balneares principalmente em tempo de férias. Uma das coisas que irritava Dona Sardinha Viva eram as Manas Toninhas que sempre que ouviam o chilrear alegre dos Kandengues lá vinham com aqueles corpanzis de balzaquianas esparramar água para todo o lado não dando a mínima para o trânsito pacato que era apanágio do lugar. – Gorda não devia ter direito a vir à praia. – Clamava despeitada. – Ao que chegámos neste mundo? Uns tranbolhos daqueles com as partes ao léu no maior dos descaramentos. – Lá estão aquelas idiotas das manas Toninhas a turvarem-me a água Gaivota Carlota. Um dia ferro-lhes uma picada no corpo que vão ver. – Ruminava o Garajau Real que não gostava da presença de tais criaturas na sua zona de pesca. – Pica, pica que ainda ficas com o bico preso naquelas banhas. - Tem juizo rapaz que já tens idade para isso. – Advertia-o avisadamente Dona Gaivota Carlota. - Mas Dom Garajau Real que se tinha pavoneado pelas alturas pela manhã e apenas deparara com alguns Baiacus agonizantes na praia estava com uma fomeca dos diabos. Baiacu não era com ele. O camarada não era peixe que se cheirasse. Mau carácter com a mania de ambalonar em arco e ainda por cima venenoso como cobras. E foi quando estava ao lado da Carlota que premonitara uma tragédia esta realmente aconteceu. Dom Garajau que tinha tanto de galã de bairro como de estúpido quando viu umas das filhas da Sardinha Viva a saltar desesperada na areia canela nem sequer reparou que ela tinha sido fisgada por um dos kandengues da praia. E aí vai disto, alça voo direito ao céu e mergulhando que nem um Mirage atira-se glutão à filha da Miss Sardinha. Tarde de mais quando sentiu o aço frio do anzol a furar-lhe o palato e percebeu que o tinham fisgado também. – Fisguei um garajau, fisguei um garajau. – Gritava um moleque exultante com a proeza. Tal façanha havia de se tornar rotineira na Praia da Miragens para mau grado das filhas da Sardinha Viva e dos colegas de Dom Garajau. Dona Gaivota que era muito ciosa dos seus ovos e quando algum rapineiro tentava surripiá-los investia furiosa contra o intruso, levanta voo e vai direito ao kandengue que larga a linha e foge pala praia a sete pés. – Eu não te avisei Garajau Real para deixares as meninas da Sardinha Viva em paz. Agora olha o que te aconteceu tanto quiseste fisgar que foste tu o fisgado. Sem esforço desembaraçou o envergonhado garajau do anzol que voou para a ponta do Pau do Sul com carradas de vergonha. Quanto à sardinha vaidosa esperou que uma onda mais larga viesse e empurrou-a para a espuma alva. E lá foi ela meia trôpega das barbatanas queixar-se à mãe do seu infortúnio. Dona Gaivota Carlota voltou tranquilamente para o seu poleiro na ponte velha e recordou com nostalgia os tempos em que os “Gasolinas” traziam pessoas para morarem ali ao lado da Praia das Miragens.

 

Reis Vissapa


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descobrindo...

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Contos do Vissapa - 2

O SONHO DO ZAGAIA

 

Aos fins-de-semana tinha por hábito agarrar na minha caçadeira e conduzir até ao quilómetro dezasseis onde desaguavam quatro estradas e havia uma tasca que me desenferrujava as goelas com uma Cuca fresquinha. Uma das estradas conduzia à Chibia, outra à Huíla e outra a que me levava até ali vinda do Lubango. A quarta estrada era a antiga ligação ao Quipungo na época muito pouco usada. Mas era por ali que enfiava a carripana em direcção a pequenas povoações que haviam germinado por via do primeiro ramal ferroviário a ser construído, projecto posteriormente abandonado. Já tinha passado o Cangolo em direcção a Proença a Nova e Capunda Cavilongo quando vi o Zagaia. Ali estava ele encostado a uma vagoneta enrugada por o ferrugem e esquecida junto ao ramal fazendo lembrar uma tartaruga gigante na desova. – Bom dia está tudo bem? Perguntei estacando o carro perto dele. – Está tudo bem menino respondeu-me com um sorriso de sol tratando-me por menino quando o menino era ele. Umas pernas esguias a emergirem do que já fora um calção em tempos e os bracinhos desnudos apoiados na borda da vagoneta devendo a idade oscilar entre os sete e os oito anos. – Então como é que te chamas? Perguntei para entabular conversa. – Me chamam mesmo de Zagaia menino. É porque eu ando sempre com a minha zagaia. – Elucidou-me justificando o nome. – Então tu és caçador? Perguntei pois eu próprio tinha vindo para aqueles lados para caçar. – Não sou não, eu sou maquinista o menino quer ver. E saltando para dentro do veículo ferroviário deu andamento ao mesmo. – Tchuca, Tchuca, Tchuca. Puuu. Puuu Puuu. – Então vais onde? Perguntei no gozo. Vou para Capunda Cavilongo respondeu-me já em plena acelaração. – Olha lá e onde é que há perdizes e capotas? Voltei à carga. - Lá à frente tem muito mesmo. Disse-me apontando o bracito para um ponto perdido na distância. – E é longe? Insisti. – É perto mas é longe. Respondeu-me encolhendo os ombros. – Então como é que é isso? – É perto se vais no teu carro mas é longe se vais no comboio do Zagaia. – Intimamente concordei com o seu raciocínio. – Olha lá mas tu para seres maquinista tens de ir à escola. – Fiz-lhe ver. – Eu costumo ir à escola lá debaixo da mulemba onde professor Kamate ensina a gente. – Ai é? E já sabes ler e escrever e fazer contas? Indaguei curioso. – Já sei a tabuada e também juntar o B com o A, que eu quero mesmo ser maquinista de verdade. Deixei-o com o seu sonho e quando regressei ao entardecer já ele devia estar no kimbo a sonhar com comboios. Nas várias vezes em que fui para aqueles lados lá estava a ele junto a velha vagoneta a conduzi-la para Capunda Cavilongo e de uma delas dei-lhe um comboio de brinquedo em lata já meio estropiado e muito longe das minhas brincadeiras de menino.

 Nos anos que se seguiram à minha saída de Angola e a guerra civil eclodiu vi imagens de linhas férreas destruídas, máquinas e carruagens agonizantes e as velhas estações completamente depredadas e lembrei-me de Capunda Cavilongo, Poença a Nova, Olivença e por aí fora. E lembrei-me do Zagaia e do seu sonho em ser maquinista, e dos meus sonhos e dos sonhos de tanta gente, da vagoneta enferrujada Tchuca, Tchuca, Tchuca. Puuu, Puuu, Puuu.

 Anos volvidos voltei a Angola e fui por estrada em direcção ao Lubango e ali onde desaguam quatro estradas a tasca onde bebia a minha Cuca estava lá esventrada e parecendo ter varicela com as imensas marcas de balas disparadas contra ela. Não hesitei e virei o carro em direcção ao Cangolo e conduzi alguns quilómetros. E lá estava ele o comboio do Zagaia na forma de vagoneta. Ao seu lado vejo um homem de muletas, barbicha branca e um semblante sem memória nem destino. – Boa tarde amigo então como está tudo por aqui? – Está tudo bem patrão. Respondeu-me a imagem famélica. – Eu não sou patrão de ninguém e acho até que nunca fui. Informei-o fugindo ao tratamento conotado com a época colonial. – É o hábito mesmo patrão. Insistiu no trato. – Eu antigamente vinha caçar para estas bandas. Dei-lhe a saber. - Ai é? Tem muita perdiz e muita capota lá. E levantou uma das muletas apontando em direcção incerta. – E é longe? Indaguei não resistindo à pergunta. É perto mas é longe. Respondeu-me prontamente. – Então como é isso? – Se vai no carro é perto mas se vai a pé é longe. Explicou-me. E mais uma vez concordei com o raciocínio. – E a vagoneta? – A vagoneta já morreu há muito tempo patrão. – Olha no tempo dos colonos tinha um menino que me dizia que ia para Capunda Cavilongo nela. – Informei saudoso. – Como mesmo chamava ele? Perguntou acendendo pela primeira vez uma luzinha no olhar perdido e vítreo. – Chamava-se Zagaia. – Zagaia sou eu mesmo patrão. – Não me trates por patrão por favor, trata-me por menino. Saí do carro e abracei-o com comoção. – Ele ficou assarapantado com a minha atitude e a face enrugada e gasta deixou escapar um sorriso. – Então e o que foi isso nas pernas? Perguntei pesaroso. – Foi o guerra menino. Fomos mesmo no tropa e tem lá aquela linha que leva o comboio no Dilolo e o comandante Kamate está nos dizer que todo o comboio dos colonos temos de destruir. Isso aí é símbolo dos colonialistas. Aí rebentou uma mina do inimigo e me levou as pernas. – Ai é? E o quê que tu achaste de destruir os comboios. Questionei-o propositadamente – Eu perguntava no comandante para quê matar o comboio que não faz mal a ninguém? E ele me dizia que era o preço da democracia e da liberdade. Explicou-me. - Então e aquele sonho que tu tinhas de ser maquinista quando fosses homem? – Ainda está aí na minha cabeça é por isso que estou aqui ao pé da vagoneta. O comandante Kamate agora é general e veio visitar os família aqui do terra e está me dizer que mais logo vem os chineses para construir o comboio novo e todo o mundo vai ganhar muitos Kuanzas. Esperançou com um sorriso. - Quem é todo o mundo Zagaia? – Eu não sei não menino, só sei que quero ser maquinista e guiar o comboio para Capunda Cavilongo. – Justificou-se. – Olha e o General veio aqui como? Perguntei curioso. – Vieram assim com muitos jeeps brilhantes e muitos soldados. E olha menino o General está gordo como o porquinho lá do kimbo. A cara dele até brilha eu acho que ele anda comer essa comida nova dos chineses. – Ai é?

 

Reis Vissapa


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Terça-feira, 25 de Fevereiro de 2014
Contos do Vissapa - 1

A MAMBA E O ELEFANTE

 

O Dombondola nascera algures entre o Bicuar e o Xiringuito e para quem não saiba o Dombondola era um elefante pachorrento com quase setenta anos de idade e um deambular pela savana e pela floresta quer lhe proporcionara um certo traquejo em relação à vida na terra africana.

Logo pela manhã e depois de uma ruminação constante pelas matas adjacentes o fleumático Dombondola encaminhava-se para o Xiringuito para se dessedentar. Ele mais a sua prole, duas elefantas avantajadas com enormes presas e um traseiro de fazer inveja a qualquer quitandeira da Baía a vender Quindins pela rua. Imediatamente atrás vinha o Dombondola Júnior e o endiabrado Farroncas. Filho da segunda fêmea do velho elefante, o Farroncas era intragável. Se a família queria ir pela esquerda ele ia pela direita ou vice-versa. Pelo caminho em direcção à água parava aqui e ali colhia Mangongo ou os frutos do Marufo, metia-se com o Zé Cágado que desprezador se enfiava na sua cubata e não lhe ligava peva. O Chico Larico caçoava do Farroncas quando o puto queria meter-se com ele tentando alcançá-lo com a sua tromba. O filho do Dombondola passava-se dos carretos com os disparates do Chico mas havia quem tivesse já visto os dois mariolas em franca conversação. Coisas do mato.

Se havia alguma coisa que punha o Farroncas totalmente fora de si era a Maria Mamba. O pai e a mãe já o tinham avisado para deixar a velha víbora em paz. O Dombondola tinha o curso da mata mal tirado claro mas mesmo assim uma grande experiência na vida que lhe dava o ensejo de conhecer toda a comunidade. – Respeita os defeitos dos outros Farroncas senão qualquer dia dou-te duas trombadas no lombo que vais ver como elas doem. - O velho patriarca tentava educar os filhos à boa maneiro do seu pai o falecido Jamba.

A Maria Mamba lá muito no fundo não era má cobra, era apenas ciosa do seu espaço onde coabitava com uma rimada de térmitas que viviam no condomínio fechado “Alto do Salalé”. Vivia sozinha sem companheiro com o seu próprio feitio, aliás tão mau que nunca conseguiu arranjar nenhum. Sem alternativa gastava o tempo embelezando a língua e as escamas cor de chumbo. Tentava dissimular o carácter fechando-se na sua toca acumulando veneno e silvando a quem passava por perto. Este mau feitio acabou por lhe granjear alguns inimigos e apenas tinha umas amigas cobras cuspideiras aduladoras e falsas que pactuavam com o seu mau humor e intransigência. Coisas do mato.

 Quando pressentia a família do Dombondola acoitava-se junto ao carreiro de terra batida por onde eles passavam e zás. Abria a boca e mostrava sem reservas a língua bifurcada em ameaças veladas que o velho paquiderme deitava para trás das costas. Mas o Farroncas rapazote cheio de sangue na guelra ficava pior que estragado e várias vezes levantou a patorra para lhe dar uma lição, só a pronta intervenção da primeira fêmea do Dombondola é que evitou uma tragédia. – Vá gente vamos para água deixem lá a senhora que lá tem os seus problemas com a vida. – Conciliava o Dombondola tentando criar harmonia na comunidade.

Um dia conversara sobre a irascível Mamba com o casal “Rinocerus” e com as três solteironas as manas “ Vestrudes” e uma delas dissera-lhe – Não lhe ligue Dombondola” que ela já nasceu assim e tarde ou nunca se endireita. – Aconselhou Julieta Vestrudes. – Mas não me digas que tenho de mudar de caminho Julieta só por causa daquela cobra emplumada? – Retorquiu o elefante. – É melhor meu velho amigo, arranje outro trajecto. – Alvitrou pragmática madame “Rinocerus”. - Nem sabe o que já passei com aquela velhaca, julga-se dona daquele lugar e ai de quem a contrarie tem um veneno que o meu Julius teve o corno infectado durante meses.

O paquiderme que não era dado a conflitos com ninguém, sabia e sabia que sabia o que fazia dele um elefante sensato e coerente. Certo dia em que Maria Mamba se excedeu nos seus dislates e o Farroncas esteve muito próximo de lhe pôr a patorra em cima parou e perguntou elegantemente. – Não me leve a mal que lhe pergunte Dona Mamba, que mal é que eu e a minha família lhe fizemos? – Saia já daqui seu velho presumido e baboso, veio invadir o meu espaço e isso é coisa que eu não tolero. Julga vossemecê que por ter esse tamanho não lhe dou uma ferroada das boas. – Sibilou colérica, capaz de se injectar a ela própria. O velho elefante sorriu irónico pois a sua couraça era de tal maneira espessa que Maria Mamba não tinha qualquer hipótese de o molestar. Afastou-se tranquilamente com a família em direcção ao Xiringuito, onde se saciaram e tomaram um magnífico banho. De regresso parou perto da toca de “Mangusto Finório” e disse-lhe. – Amigo “Finório” sabes que vou começar a ir ao outro lado do rio e tão cedo não passo por estas bandas, mas como sou teu amigo vou dar-te uma dica boa. – Então diz lá Dombondola é coisa que me interesse? – Perguntou o Mangusto sempre pronto para a rebaldaria. – Olha nestas minhas andanças por aqui e por ali descobri uma toca excelente e a bom preço perto do “Alto do Salalé” que te pode interessar. – No “ Alto do Salalé” meu irmão, nem penses! Porque achas tu que me mudei de lá para aqui. Aquela Maria Mamba pretensiosa não é vizinha para ninguém. – Queixou-se eriçado. - Olha pensando bem já não vou mudar de caminho vou deixa-la silvar o resto da vida e pode ser que um dia se pique a ela própria, a mim e ao “Farroncas” não pica de certeza, afinal eu só passo na estrada e nem um humilde Salalé pisei na minha vida na selva.

Passa bem “Mangusto Finório”. – Passa bem Dombondola e dá cumprimentos às manas cuspideiras e podes dizer que eu nunca vou chateá-las, ainda por cima com aquela verruguenta da Mamba por perto. Despediu-se o Mangusto com ironia. Coisas do mato.

 

Reis Vissapa


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Segunda-feira, 2 de Dezembro de 2013
Atualização

Conforme podem ver, o nosso contador foi atualizado. Continuamos a receber visitantes de todo o mundo. Luanda, Lisboa e São Paulo continuam a ser as cidades onde mais internautas acedem ao Angola Profunda. As estatísticas podem assim indiciar que o interesse pelo nosso trabalho se mantém, constituindo-se este blogue numa importante fonte de informação sobre Angola, muito procurada. Não fazemos concorrência a ninguém nem a nenhum outro blogue angolano - que são muitos, entre os quais alguns muito bons! A qualidade do que fazemos não se insere em lógicas de mercado. É tão simplesmente uma paixão que se partilha. Sentimo-nos recompensados ao imaginar os olhos que se iluminam com as fotos, ou os sorrisos que surgem pelo que aqui se possa ler.


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Sábado, 26 de Outubro de 2013
O frade kimbanda

AI VAI O FRADE QUIMBANDA
QUE O PAPA FRANCISCO MANDOU
E NEM SABE POR ONDE ELE ANDA....
KAMBA, SE KURIKA AQUI NÃO TEM,
AKA!! FOI MUKAIA QUE O APANHOU....

TIVE PENA E QUASE NÃO O RECONHECI...
TEM ARRANHÕES POR TODO O LADO
E CAPENGAVA DE UM DEDO INCHADO...
MAGRO MAIS MAGRO, JURO, NUNCA VI...
A DANADA DA MUKAIA DEIXOU-O ESTREZILHADO!

O POBRE "KATINGAVA" DE FORMA DANADA
DE FRADE QUASE JÁ NÃO TINHA NADA!...
E SÓ DIZIA: - "ME LAVA, ME LAVA MEU BÉM...
MAS "BOCA DE SIRI", NÃO SE DIZ A NINGUÉM".

VAI MAIS NOVO, MAIS LINDO E BEM LAVADO,
O FRADE QUE FEDIA DE "KATINGA" E  KATINGAVA.
VAMOS DEVOLVÊ-LO AO PAPA, TODO PERFUMADO
E SEREMOS ABENÇOADOS, COMO NINGUÉM ESPERAVA...

- ISTO NÃO SE FAZ AO "FRADE D'UM PAPA ABENÇOADO"!...


(Neco Mangericão, outubro/2013)



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Quarta-feira, 20 de Março de 2013
pando-ware

Sete anos.


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Segunda-feira, 18 de Março de 2013
chegámos!

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é por aqui...

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Quinta-feira, 14 de Março de 2013
S. Francisco de Assis

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Quarta-feira, 13 de Março de 2013
para desfrutar o Lubango...


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continua a aguardar reabilitação...

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regresso às origens...

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Sexta-feira, 8 de Março de 2013
dia da Mulher

(Adalberto Gourgel)

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altivo e solitário

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Quinta-feira, 7 de Março de 2013
andua de Cabinda

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Editor e Redator: José "Kahango" Frade Coordenadora do Conselho Redatorial: Paula Duarte (A-Santa-Que-Me-Atura...) O Mui Ilustre Painel de Colaboradores: Dionísio Sousa (Cavaleiro dos Contos), "Funka" (Nobre Reporter Permanente), João "Neco" Mangericão (Moçâmedes), Jorge Sá Pinto (Assuntos Arqueológicos), José Silva Pinto (Crónica Quotidiana), Mané Rodrigues (Assuntos Culturais), MJT Pimentel Teixeira (Prospecções), Paulo Jorge Martins (Fauna Grossa), Ulda Duarte (Linguística da Huíla), Valério Guerra (Poeta Residente).
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